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25 de abril de 2026

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Vai falar sobre a Amazônia? Ferramenta gratuita reúne mais de 1.200 pesquisadores e outras vozes locais

Crédito: Canva

Banco de fontes, criado pelo Amazônia Vox e ampliado com apoio do Instituto Serrapilheira, busca reforçar a visibilidade de especialistas amazônidas na imprensa

“Se forem falar da Amazônia, nos ouçam. Temos coisas incríveis a contar”. A frase de Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, resume a proposta do Banco de Fontes de Conhecimento da Amazônia. Criado pelo Amazônia Vox, a iniciativa, apoiada pelo Instituto Serrapilheira, acaba de alcançar o marco de mais de 1.200 nomes registrados. Às vésperas do Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, e com a COP30 se aproximando, o projeto busca reforçar a visibilidade a vozes locais e valorizar o conhecimento produzido na região. 
 

O acesso ao banco de fontes é gratuito e pode ser feito aqui. O objetivo é facilitar a conexão entre jornalistas, produtores de eventos e de conteúdo junto a cientistas e demais especialistas em áreas como meio ambiente e biodiversidade, história, cultura e saúde, além de representantes da sociedade civil, lideranças indígenas e outros. Os interessados podem buscar fontes por nome, cidade e tema.
 

A iniciativa por criar um banco de fontes para dar maior visibilidade a amazônidas na imprensa começou a ser desenvolvida em 2023. À época, o Amazônia Vox – um dos seis projetos apoiados em 2024 pelo International Center for Journalists (ICFJ) – já atuava em outras frentes, como produção de conteúdo jornalístico, treinamentos e banco de freelancers de comunicação, e o banco de fontes avançava de forma mais lenta. Com o apoio do Instituto Serrapilheira, foi criado então o programa Vocação Amazônia – Vozes, Ciência e Comunicação da Amazônia, com metas claras para reforçar e expandir a ferramenta em 2025.
 

Para dar impulso ao projeto, foram selecionados 18 profissionais — nove jornalistas e nove estudantes de jornalismo — organizados em duplas em cada estado da Amazônia Legal (Amapá, Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão). A iniciativa previa ainda o pagamento de bolsas para as duplas. A meta era alcançar 1.000 fontes mapeadas e cadastradas até setembro deste ano, além de fortalecer a base já existente.
 

O objetivo foi superado antes mesmo do encerramento: atualmente, o banco de fontes conta com mais de 1.200 cadastros, distribuídos pelos nove estados da Amazônia Legal. A plataforma também permite a inscrição autônoma por pesquisadores, instituições e coletivos locais, que preenchem um cadastro e a equipe do Amazônia Vox faz a avaliação e autoriza a inclusão na base do site.
 

Daniel Nardin, idealizador do programa e diretor executivo do AmazôniaVox, diz que a meta é ampliar a participação de especialistas locais em análises e reportagens sobre questões da Amazônia. “Incluir nas produções as vozes e o conhecimento de quem é ou vive no território é uma forma de praticar um jornalismo decolonial, privilegiando o conhecimento produzido em uma região historicamente tratada a partir do olhar de quem é de fora. Isso permite maior profundidade e pluralidade de vozes, além de gerar novas oportunidades ao dar visibilidade para as questões – com seus problemas e soluções – a partir do tratamento dado pelo conhecimento amazônida”, destaca.
 

Para Ruanne Lima, coordenadora do programa Vocação Amazônia, é preciso romper o paradigma de que os debates precisam ser feitos por pessoas de fora. “Na Amazônia, temos grandes cientistas, pesquisadores e líderes de comunidades tradicionais indígenas, quilombolas e ribeirinhas, que têm muito a dizer sobre nossas especificidades e saberes. Dar voz a essas pessoas é essencial para compreender os desafios que enfrentamos na nossa região e, acima de tudo, como superá-los.”
 

Conheça algumas fontes cadastradas:
 

Maria Elena Crespo López (Belém/PA) – Doutora em Bioquímica, professora titular do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq (Nível 1D). Lidera o Instituto Amazônico do Mercúrio, referência no enfrentamento da contaminação por mercúrio na região. Foi uma das autoras do Plano Regional de Mitigação dos Impactos do Mercúrio no Ambiente Amazônico (2025) e elaborou o Projeto de Lei 1011/2023 sobre a Política Nacional de Prevenção da Exposição ao Mercúrio. Integra o UNEP Global Mercury Partnership e está entre os Latin-America Top 5.000 Scientists e os World Top Ten per Cent Scientists.

Edithe Pereira (Belém/PA) – Doutora em História e Geografia pela Universidade de Valência (Espanha), pesquisadora emérita do Museu Goeldi e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq (Nível 1D). Atua há mais de 30 anos em pesquisas arqueológicas na Amazônia, com destaque para arte rupestre, inventários arqueológicos e difusão do patrimônio. Coordena o projeto “A ocupação pré-colonial de Monte Alegre (PA) – conservação das pinturas rupestres”.

Valdenira Ferreira dos Santos (Macapá/AP) – Geóloga (UFPA), doutora em Geologia e Geofísica Marinha (UFF). Pesquisadora do IEPA e professora da UNIFAP, coordena o Sistema de Observação da Foz do Amazonas e projetos sobre vulnerabilidade e sustentabilidade em zonas costeiras amazônicas. Recebeu em 2022 o Prêmio Marta Vannucci da UNESCO para Mulheres na Ciência do Oceano. Atuou no mapeamento ambiental da Bacia da Foz do Amazonas.

William Xavier (Macapá/AP) – Biólogo, mestre em Biodiversidade Tropical e doutor em Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal. Professor da Universidade do Estado do Amapá, lidera o grupo de pesquisa “Estudo e Uso da Biodiversidade Amazônica” e atua em Micologia, Microbiologia e Educação Ambiental. Coordena projetos voltados ao cultivo de cogumelos, biodiversidade e divulgação científica.

Almir Suruí (Cacoal/RO) – Almir Suruí é líder indígena e atual presidente do povo Paiter Suruí, em Rondônia. Foi o primeiro presidente eleito democraticamente do Território Indígena Sete de Setembro e liderou o Plano de Gestão Territorial de 50 anos. Criou iniciativas sustentáveis como o Projeto Carbono Suruí e o Projeto PAMINE, além do Mapa Cultural Paiter Suruí em parceria com o Google Earth. Recebeu o Prêmio de Direitos Humanos da ONU e foi listado entre as 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista TIME.

Ana Cumbuca (Palmas/TO) – Assistente Social (ULBRA), mestra em Desenvolvimento Sustentável junto a Povos e Comunidades Tradicionais (UnB) e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania (UnB). Atua na temática racial, com ênfase em comunidades quilombolas. Participou de pesquisas do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia em territórios quilombolas no Tocantins.

Sonaira Silva (Cruzeiro do Sul/AC) – Pesquisadora que estuda sobre queimadas e incêndios florestais no Acre. Utiliza imagens de satélite para mapear e identificar as áreas afetadas, além de investigar os fatores que contribuem para ocorrência dos incêndios, como secas, temperatura, uso da terra e desmatamento. Professora de Geoprocessamento da Universidade Federal do Acre (UFAC).

Emanuel Fernando (Porto Velho/RO) – Agroecólogo, doutor em Fitotecnia (UFV) e professor associado da Universidade Federal de Rondônia. Atua nos programas de pós-graduação em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente e em Ciências Ambientais. Suas pesquisas focam em agroecologia, sistemas agroflorestais, restauração de serviços ecossistêmicos e bioeconomia, em parceria com comunidades locais e agricultores familiares na Amazônia Ocidental.

Diogo de Lima (Tefé/AM) – Coordenador do Programa de Manejo da Fauna do Instituto Mamirauá e analista de Pesquisa e Desenvolvimento Sênior. Zootecnista (UFRPE) com mestrado em Administração e Desenvolvimento Rural, pesquisa o manejo comunitário da fauna na Reserva Mamirauá, com foco em sustentabilidade, conservação, cadeias produtivas e conflitos entre agropecuária e fauna silvestre.

Sobre o Serrapilheira

Lançado em 2017, o Instituto Serrapilheira é uma instituição privada, sem fins lucrativos, que promove a ciência no Brasil. Foi criado para valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade, ajudando a construir uma sociedade cientificamente informada e que considera as evidências científicas nas tomadas de decisões. O instituto tem três programas: Ciência, Formação em Ecologia Quantitativa e Jornalismo & Mídia. Desde o início de suas atividades, já apoiou financeiramente mais de 400 projetos de ciência e de jornalismo e mídia, com mais de R$ 120 milhões investidos.

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