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Ativista brasileira é a primeira figura pública do país a receber a mais alta honraria da universidade no campo dos Estudos Africanos e Afro-Americanos
Cambridge, MA – A Universidade de Harvard anunciou que concedeu a Medalha W.E.B. Du Bois de 2025 à ativista brasileira Marielle Franco (1979–2018), em reconhecimento às suas contribuições notáveis à cultura afrodescendente e à vida intelectual. A cerimônia aconteceu nesta terça-feira, 4 de novembro, e reuniu sete homenageados de destaque. Marielle foi a primeira figura pública brasileira — e apenas a segunda pessoa da América Latina, após a vice-presidente da Colômbia Francia Márquez em 2024 — a receber a distinção.
Criada pelo Instituto de Pesquisas Afro-Americanas de Harvard, a Medalha W.E.B. Du Bois é a mais alta honraria concedida pela universidade no campo dos Estudos Africanos e Afro-Americanos. O prêmio reconhece personalidades de todo o mundo cujas trajetórias fortalecem o legado intelectual e cultural das populações africanas e afrodescendentes. Entre os homenageados anteriores estão acadêmicos, artistas, escritores, jornalistas e líderes públicos cujas ações ampliaram os horizontes da justiça racial e da democracia.
Além de Marielle Franco, os medalhistas de 2025 incluem nomes de destaque internacional:
- James E. Clyburn, congressista dos Estados Unidos pela Carolina do Sul e líder histórico do movimento pelos direitos civis;
- Misty Copeland, bailarina e escritora, primeira mulher negra a alcançar o posto de bailarina principal no American Ballet Theatre;
- Brittney Griner, jogadora profissional de basquete e ativista pelos direitos LGBTQIA+;
- George E. Johnson, empresário e empreendedor pioneiro na indústria de cosméticos voltada à população negra;
- Spike Lee, cineasta, roteirista, produtor e professor, referência no cinema afro-americano contemporâneo;
- Amy Sherald, artista plástica reconhecida internacionalmente, autora do retrato oficial da ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.
Marielle Franco tornou-se ativista ainda jovem, após perder uma amiga vítima de bala perdida em uma operação policial no Rio de Janeiro. Desde então, dedicou sua vida à luta contra a violência de Estado, à defesa dos direitos humanos e à valorização das mulheres negras, da população LGBTQIA+ e das comunidades periféricas. Graduada em Ciências Sociais pela PUC-Rio e mestre em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense, foi eleita em 2016 vereadora da cidade do Rio de Janeiro, tornando-se a única mulher negra entre 51 parlamentares da Câmara Municipal.
Durante seu mandato, presidiu a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania e denunciou sistematicamente a brutalidade policial nas favelas. Sua produção intelectual, marcada pelo diálogo entre teoria e prática, abordava a política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro — tema de sua dissertação de mestrado.
Em 2018, o Instituto de Pesquisas Afrolatino-Americanas (ALARI), vinculado à Universidade de Harvard, havia convidado Marielle para participar do simpósio “Afrodescendentes no Brasil: conquistas, desafios atuais e perspectivas para o futuro”, realizado em abril daquele ano. Seis semanas antes do evento, e apenas um dia após denunciar publicamente a “guerra” policial contra sua comunidade, Marielle foi assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes.
“Foi porque mulheres como ela desafiaram e transformaram as estruturas de poder, enfrentando o racismo, o sexismo e a LGBTQIA+fobia, que sua preciosa vida foi tirada. Mas seus assassinos fracassaram. Marielle esteve conosco no ALARI, e nunca mais saiu daqui”, afirmou Alejandro de la Fuente, diretor fundador do ALARI.
“Nosso campo, o dos Estudos Afrolatino-Americanos, é alimentado pelas lutas por justiça e inclusão, nutrido por mulheres como Marielle. Isso não se pode matar. Marielle Franco é vida; e a vida não se mata.”
A relação entre o ALARI e o Brasil é histórica e estratégica. Desde sua criação, o instituto tem se dedicado a aproximar a pesquisa afro-latino-americana das experiências sociais e intelectuais de países como o Brasil, reconhecido como o maior país negro fora da África e um centro de resistência, arte e produção de conhecimento de matriz africana. O ALARI mantém parcerias com universidades e organizações brasileiras, promovendo intercâmbios acadêmicos, simpósios e publicações que ampliam o diálogo entre pesquisadores, artistas e ativistas. A homenagem a Marielle Franco reafirma essa ponte e consolida o reconhecimento de uma trajetória que articula militância, ciência e transformação social como expressões inseparáveis do pensamento afro-diaspórico.
O ALARI é a primeira instituição acadêmica dos Estados Unidos dedicada ao estudo das populações afrodescendentes na América Latina e no Caribe. Seu trabalho promove pesquisa, diálogo e engajamento público sobre as histórias, culturas e experiências contemporâneas das comunidades afrodescendentes nas Américas.



