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25 de abril de 2026

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 Marcha Mundial pelo Clima espera reunir representantes de vários grupos durante a COP 30

Crédito da imagem: Freepik

Evento será no dia 15, mas local e horário de concentração só serão divulgados durante a Conferência do Clima

Todos os coletivos que estarão na COP 30 têm um compromisso marcado no dia 15 de novembro: a Marcha Mundial pelo Clima, em Belém. O evento reunirá integrantes da Cúpula dos Povos e da COP das Baixadas, lideranças indígenas, amazônicas, comunitárias, representantes do Poder Público e da iniciativa privada, organizações nacionais e estrangeiras. Por questões de segurança, o local e o horário serão definidos durante a Conferência, explica o assessor político-institucional do Comitê COP 30, Marcos Wesley Pedroso.
 

Várias comunidades de Belém estão mobilizadas para a Marcha, que terá atividades culturais como oficinas de estandartes e cartazes, bonecos infláveis gigantes com personagem do Comitê COP 30 e o Cortejo Visagento, um desfile simbólico da cultura paraense que destaca figuras folclóricas como o Curupira, espírito guardião da floresta. Neste ano, o tema escolhido foi “Lutar e resistir contra os predadores da vida disfarçados de progresso”, em referência aos impactos ambientais de catástrofes climáticas.
 

O objetivo é reunir o maior número de participantes em defesa das pautas climáticas globais, entre elas ações de mitigação e adaptação climática, fortalecimento de políticas públicas pelo desenvolvimento sustentável, financiamento, conscientização e educação da sociedade. “É um grito coletivo, uma retomada de mobilização das ruas a fim de pressionar os tomadores de decisão por medidas efetivas para frear as mudanças climáticas”, afirma Wesley, ao lembrar que a livre manifestação é fundamental para a reivindicação popular. Nas COPs de Dubai e Baku (Azerbaijão), as Marchas pelo Clima sofreram restrições do Poder Público.
 

“Trata-se de um grande momento de vazão de demandas populares e de poder decisório global”, define Carol Santos, da diretoria do Engajamundo, organização que integra a Aliança dos Povos pelo Clima e é formada por jovens de todo o país que atuam em causas de transformação social. Para Anais Cordeiro, do Comitê Chico Mendes, há uma grande mobilização de povos indígenas e comunidades tradicionais e periféricas para a Marcha Mundial do Clima e para debates e negociações na COP 30. O Comitê Chico Mendes também estará presente no Espaço Chico Mendes e na Fundação Banco do Brasil, no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi, entre os dias 7 e 21.
 

A intenção é levar a cultura da floresta, a memória e o legado de Chico Mendes para a Cúpula dos Povos e a COP 30 e reafirmar o papel fundamental dos territórios na formulação e na implementação de políticas de enfrentamento à crise climática. Durante a Conferência, será apresentado um documento com recomendações das populações extrativistas da Amazônia e sua relevância nas negociações sobre o clima.
 

Um dos pontos de destaque do evento é a celebração dos dez anos do Acordo de Paris, em que 195 países estabeleceram metas para estancar o aquecimento global a partir da redução das emissões de gases de efeito estufa. “Esse tema tem peso na agenda climática global e é necessário atualizá-lo para uma versão 2.0 do Acordo de Paris, com a revisão de pontos não cumpridos ou que precisam ser atualizados porque o cenário mudou após o agravamento da crise climática”, afirma Wesley. 
 

As novas metas para 2035, as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), serão apresentadas durante a Conferência. Mas pouco mais de 60 dos 197 signatários da Convenção do Clima da ONU já atualizaram seus indicadores de redução de emissões, o que compromete a redução do aquecimento global. China, União Europeia e Índia, grandes poluidores, não revisaram seus índices. A conjuntura se agrava com a decisão dos EUA de sair do Acordo de Paris e incentivar a produção de combustíveis fósseis. Porém, o último relatório da ONU traz alguma esperança ao apontar a redução de emissões de gases do efeito estufa antes de 2030.
 

“Os desafios são grandes e a cooperação internacional é determinante na nova governança global”, alerta Lygia Nassar, diretora-adjunta do Laboratório da Cidade, organização da sociedade civil de Belém atuante no debate sobre o clima junto às comunidades periféricas. “Não há como falar em mudanças climáticas sem considerar o multilateralismo”, defende.
 

Reivindicações – Retomar as ruas com a Marcha Mundial pelo Clima é uma forma de trazer à tona as demandas da sociedade. “Vamos mandar o nosso recado aos tomadores de decisão”, diz Mariana Guimarães, assessora política internacional do Comitê COP 30, que chama a atenção para a pauta de transição justa, voltada para o desenvolvimento sustentável e um modelo econômico mais equitativo, incluindo todos os grupos sociais, pessoas e territórios. Ela cita como exemplo uma comunidade ribeirinha de mulheres no Amapá – do projeto Sementes do Araguari – que antes trabalhavam na mineração e optaram por um modo de vida sem desmatamento. Passaram a gerar renda com a venda de cosméticos a partir da produção de produtos bioativos, atividade de baixo impacto ambiental.
 

Outro ponto importante e mobilizador da Marcha, acredita Mariana, é o financiamento climático. “Os recursos devem chegar às comunidades na ponta, possibilitando maior participação nas negociações e tomadas de decisão das iniciativas a serem implementadas”, afirma. É necessário investir em projetos que tornem os espaços e as cidades resilientes às mudanças climáticas, acrescenta Mariana, ao lembrar que muitas obras em Belém foram realizadas sem considerar o movimento típico e diário das marés e o curso dos rios. O resultado é o alagamento de várias áreas da capital no período das chuvas.
 

Financiamento coletivo e desburocratização também são pautas de destaque para o coletivo Engajamundo. “É importante discutirmos sobre o processo de financiamento e desburocratização, quais são e de que forma os grupos conseguem ter acesso aos recursos” provoca Ana Rosa Cyrus, diretora-executiva da organização, que terá dez delegados na Blue Zone (área oficial da Conferência) para acompanhar as articulações, promover ações de ativismo e fazer a cobertura da Conferência do Clima com um jornal próprio, o “Jornal da Fofoca COP 30”. O Engajamundo lançou a campanha “A gente cobra”, a favor do financiamento climático justo e pela taxação de milionários, cujo marco foi uma viagem de barco de três dias, de Alter do Chão a Belém, com a participação de 300 ativistas do Brasil e da América Latina. “Para ter justiça climática tem que ter justiça social”, afirma Ana Rosa.
 

A pressão das ruas é fundamental para sensibilizar os convidados oficiais, diz Marcos Wesley, do Comitê COP 30. Um documento do grupo, intitulado “Nossa Chance para Adiar o Fim do Mundo”, apresenta mais de 30 propostas de diversas comunidades sobre a agenda climática. Cerca de cem organizações ligadas ao Comitê participaram dessa construção coletiva.
 

Entre as reivindicações incluídas no documento, estão a demarcação de áreas das comunidades tradicionais, mais unidades de conservação no país, investimento em energias renováveis, fortalecimento da agricultura familiar, restauração de manguezais e melhoria do saneamento urbano, entre outras. “As contribuições não podem ficar apenas em documentos. Queremos saber onde estão as ações climáticas dos acordos internacionais”, afirma Wesley.

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