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24 de abril de 2026

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Cientistas e líderes indígenas se unem para avançar na Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI)

Putira Sacuena, diretora do Departamento de Atenção Primária à Saúde Indígena/SESAI: “Não é possível construir um sistema público de saúde sem ouvir o povo” / Crédito da foto: Vivian Fernández

Recomendações do congresso no Rio de Janeiro serão encaminhadas à Cúpula Global da OMS em Delhi, Índia, de 17 a 19 de dezembro de 2025

Pela primeira vez na história, cientistas, formuladores de políticas públicas e líderes indígenas de mais de 70 países reuniram-se no 3º Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI), no Rio de Janeiro, para compartilhar evidências de como integrar a Medicina Tradicional e Complementar à medicina convencional pode melhorar os resultados clínicos dos pacientes e fortalecer a saúde pública.

“Pela primeira vez, reunimos o conhecimento tradicional e a ciência de todo o mundo para construir um futuro mais equilibrado, humano e sustentável para o clima — mas o déficit global de financiamento ainda é enorme”, afirmou Prof. Dr. Ricardo Ghelman, presidente do Congresso.

Apesar do uso crescente — uma em cada três pessoas no mundo utiliza algum tipo de medicina tradicional — menos de 1% dos orçamentos de pesquisa em saúde é destinado à MTCI[1]. Em 2021/2022, essa proporção foi de 0% na Europa, abaixo de 0,2% na Austrália e nos EUA, e 6,3% na Coreia do Sul.

“A medicina tradicional — a medicina do povo — é usada por bilhões. É hora de um salto ousado na pesquisa para acompanhar a realidade”, declarou Dra. Tabatha Parker, membro do conselho da TCIH Coalition.

Às vésperas da COP30, novos dados mostram como a saúde humana e planetária estão interligadas. Com 50% da população global vivendo com alguma doença crônica, nossa alimentação e impacto dietético respondem por 22% das doenças não transmissíveis (DNTs). Segundo Prof. Dr. Brenda Leung, do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Lethbridge, no Canadá: “As evidências crescentes mostram que a medicina tradicional, o conhecimento indígena e a biodiversidade são inseparáveis — a biodiversidade sustenta a sabedoria medicinal, enquanto as culturas indígenas a protegem e cultivam.”

Estamos vivendo as consequências das mudanças climáticas. A natureza não está à venda; ela contém o alimento e o remédio de que precisamos. Não é possível construir um sistema público de saúde sem ouvir o povo”, afirmou Prof. Putira Sacuena, diretora do Departamento de Atenção Primária à Saúde Indígena/SESAI do Ministério da Saúde do Brasil.

Embora alguns países como Brasil, China, Índia, Irã, Coreia do Sul e Suíça regulem e integrem a MTCI em seus sistemas públicos de saúde, a maioria ainda não o faz.

Como podemos regulamentar a medicina tradicional se não a integramos? Há um verdadeiro desequilíbrio. Precisamos também capacitar tanto os curandeiros tradicionais quanto os médicos para trabalharem juntos”, disse Prof. Motlalepula Matsabisa, especialista africano em Medicina Tradicional e pesquisador em farmacologia da Universidade do Estado Livre (UFS), na África do Sul.

Pesquisas de seis regiões demonstraram os benefícios da MTCI quando regulada e integrada com segurança aos sistemas públicos de saúde, incluindo redução de sintomas, menos encaminhamentos caros, menor uso de antibióticos e melhora da saúde mental e do manejo de doenças crônicas.

Os sistemas ocidentais de saúde precisam aprender urgentemente com os diversos saberes tradicionais para passar da reparação à prevenção — aproveitando o poder da MTCI para sustentar a saúde e prevenir doenças”, afirmou Prof. Dr. Georg Seifert, presidente da Sociedade Europeia de Medicina Integrativa.

Dr. Hiba Boujnah, Chefe de Cooperação Internacional e Parcerias do Centro de Competência Charité para Medicina Tradicional e Integrativa (CCCTIM), ressaltou: “À medida que integramos a medicina tradicional nos sistemas de saúde, devemos fazê-lo com humildade e cuidado. As práticas indígenas não devem ser comercializadas ou retiradas de contexto, e a integração deve ser guiada pelo respeito, reciprocidade e compartilhamento justo de benefícios“.

As evidências incluem:

  • Implementação e evidências iniciais de eficácia e segurança de práticas médicas tradicionais e complementares em hospitais de diversos países.
  • Mapa de Evidências em Pediatria Integrativa, com 160 revisões sistemáticas de 74 países, mostrando 73% de efeitos positivos em saúde mental, redução da dor, oncologia e distúrbios respiratórios e gastrointestinais.
  • Uso da Medicina Ayurvédica no cuidado pediátrico e geriátrico na Índia.
  • Dados de 312 revisões sistemáticas mostram o papel crucial dos espaços verdes e das Intervenções Baseadas na Natureza na melhoria da saúde física e mental, com novos mapas de evidências indicando 94% de efeitos positivos em ansiedade, depressão, obesidade e diabetes — especialmente em áreas urbanas.
  • No sistema público chinês, a Medicina Tradicional Chinesa e Integrativa representa 30% dos serviços, com 30.000 prescrições e 19 toneladas de fitoterápicos por dia.
  • Desde a COVID-19, há crescente interesse e pesquisa sobre tratamentos tradicionais e fitoterápicos na África, América Latina e Europa, mas ainda há grave escassez de financiamento e políticas.
  • Cuidados de suporte oncológico baseados nas Diretrizes da Sociedade de Oncologia Integrativa (ASCO-SIO) para melhorar a qualidade de vida e controlar sintomas relacionados ao câncer.
  • Uso de Ayahuasca e terapias assistidas por psicodélicos no tratamento da depressão severa na América Latina.
  • Aplicações de Inteligência Artificial na MTCI para identificar plantas medicinais e fortalecer a pesquisa global.
  • Estudo premiado sobre Práticas Integrativas e Complementares com arte e ciência para crianças em comunidades vulneráveis, mostrando como criatividade e empatia podem transformar saúde e educação.
  • Terapia com visco (mistletoe) para reduzir efeitos colaterais do tratamento do câncer na Europa, América do Sul e Índia; meditação e ioga no tratamento da dor crônica; e uso de ventosaterapia e acupuntura no apoio a pessoas em situação de rua e dependência química no Brasil.

Este congresso mostrou como a MTCI está expandindo as fronteiras metodológicas e temáticas das ciências da saúde — unindo sabedoria ancestral e inovação — por meio de abordagens criativas, humanas e sustentáveis para a saúde global”, afirmou Dr. Caio Fábio Schlechta Portella, presidente do Comitê Científico do 3º WCTCIM 2025.

A pesquisa rigorosa em MTCI está lançando as bases para sua integração aos sistemas de saúde em todo o mundo — a área está encontrando sua própria voz na ciência”, afirmou Prof. Holger Cramer, da Universidade de Tübingen e ex-presidente da ISCMR.

O congresso reuniu 1.300 participantes de 70 países, com 664 resumos revisados por pares de 47 países — incluindo 61% de pesquisas, 31% de relatos de experiência e 8% de estudos de caso clínico — sob o tema: “Fortalecendo a Saúde Pública Global por meio da MTCI: Diversidade de Saberes, Sociedades do Bem-Estar e Saúde Planetária.”

Agora temos uma oportunidade clara de integrar dados do mundo real da prática clínica em MTCI”, disse Prof. Jeffery Dusek, da Rede de Pesquisa Baseada na Prática – BraveNet, que inclui 34 membros dos EUA, Coreia do Sul, Austrália, Israel, Canadá e Brasil.

Reunir profissionais, pesquisadores e estudantes de todo o mundo cria uma rede poderosa para promover abordagens baseadas em evidências, integrativas e de autocuidado, em direção a um futuro mais saudável e holístico”, afirmou Prof. Mariana Cabral Schveitzer, da Universidade Federal de São Paulo e ex-presidente do CABSIN.

Uma declaração importante do Ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, em missão na China e na Índia, foi lida na cerimônia de encerramento: “Renovamos, como líderes dos BRICS, nosso compromisso mútuo de fortalecer a medicina tradicional em cada sistema de saúde e ampliar os intercâmbios. Visitei hospitais de Medicina Tradicional Chinesa na China e centros de Medicina Ayurvédica na Índia para valorizar e dialogar com essas realidades. Contem com o Ministério da Saúde do Brasil para apoiar a Medicina Tradicional no Brasil e em fóruns internacionais.”

As recomendações do Rio serão encaminhadas ao Encontro Global da OMS sobre Medicina Tradicional, em Delhi, Índia, de 17 a 19 de dezembro de 2025, como contribuição à Estratégia Global da OMS sobre MTCI (2025–2034), aprovada em maio.

Organizado pelo Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN), Sociedade Internacional de Pesquisa em Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (ISCMR) e Sociedade Europeia de Medicina Integrativa (ESIM), o evento também destacou a liderança do Brasil em saúde integrativa. Sob a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) — que completará 20 anos em 2026 —, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 9 milhões de atendimentos em MTCI em 2024, um aumento de 70% em dois anos.

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