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25 de abril de 2026

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Violência baseada em gênero (VBG): pesquisa traz panorama sobre impacto na comunidade escolar

Amanda Sadalla, diretora e cofundadora da Serenas / Crédito: Pedro Paquino Agência EDN

A partir de informações colhidas com gestores públicos, professores e estudantes, o estudo busca entender como a comunidade escolar percebe, vivencia e responde à violência contra meninas e jovens da comunidade LGBTQIA+, trazendo ainda contribuições para o enfrentamento e prevenção da VBG

Na segunda-feira, 3, foram apresentados os resultados da pesquisa inédita “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, realizada pela Serenas – organização suprapartidária e sem fins lucrativos que atua para prevenir violências baseadas em gênero no Brasil – em evento realizado no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Na fala de abertura, a diretora e cofundadora da entidade Amanda Sadalla deu as boas-vindas, contou a trajetória e apresentou as motivações da entidade para a realização do estudo. O detalhamento dos dados obtidos sobre a violência baseada em gênero (VGB) foi explicado por Débora Lira, especialista em políticas públicas e de gênero, e uma das coordenadoras técnicas do projeto.

Durante a explanação, ficou ainda mais claro que o título da pesquisa remete à ideia de que meninas e mulheres só serão verdadeiramente livres para sonhar quando estiverem livres das violências que acontecem justamente nos espaços onde deveriam se sentir protegidas. Os depoimentos que reforçam essa argumentação foram apresentados ao público formado essencialmente por educadores, assistentes sociais, líderes de comunidades, agentes do sistema educacional e do terceiro setor.

Como parte importante para analisar, debater e comentar os resultados, o evento contou com um painel mediado pela educadora e psicanalista Carolina Delboni, que conduziu a interação entre Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, o professor Mário Augusto, psicólogo e especialista em educação antirracista, e Graziela Santos, coordenadora de Políticas Educacionais na Serenas.

Luciana destacou a importância da pesquisa: “Aqueles que trabalham o tema da violência no ambiente escolar já tinham a percepção do cenário trazido pela pesquisa, mas a mera percepção não serve como argumento. O grande mérito desse trabalho foi trazer dados reais que podem embasar propostas a serem levadas aos gestores e tomadores de decisão capazes de implementar políticas públicas de combate e prevenção à VBG”.

Para Mário Augusto, essa liberdade só será possível “quando houver espaço de fala e de escuta, isto é, quando meninas e adolescentes se sentirem seguras para falar sobre situações de violência e encontrarem na escola o acolhimento necessário”.

A pesquisa entrevistou mais de 1.400 pessoas nas cinco regiões do país para entender como a comunidade escolar percebe, vivencia e responde à violência baseada em gênero (VBG). A pesquisa, realizada pela Serenas – organização social sem fins lucrativos dedicada a promover a equidade de gênero por meio da educação e ampliar o acesso de mulheres e meninas a direitos fundamentais –, combinou entrevistas em profundidade com gestores públicos e escolares, grupos focais com professores e estudantes e um questionário online respondido por docentes.

Entre as perguntas que orientaram o estudo estão: Como estudantes percebem violência baseada no gênero na escola? Como professores e gestores reconhecem essas situações? Quais práticas de prevenção já estão em curso nas escolas? Como o sistema educacional pode fortalecer sua capacidade de resposta e cuidado?

Para a viabilidade do trabalho, a Serenas contou com a Plano CDE, empresa especializada em pesquisas, com financiamento do Instituto Beja e do Instituto Machado Meyer e apoio institucional da plataforma Associação Nova Escola. O lançamento da pesquisa também contou com apoio institucional do Instituto Liberta.

ALGUNS DADOS DA PESQUISA

Sem qualquer surpresa, as meninas são os principais alvos da VBG, que muitas vezes ocorre entre os próprios alunos: 23% dos professores dizem ser comum ver alunos sexualizando meninas por conta da roupa ou do comportamento delas. Além disso, 42% relataram ter testemunhado situações em que meninos tocaram ou acariciaram o corpo de meninas de maneira desrespeitosa e/ou sem consentimento, no último semestre letivo. Mas, embora meninas sejam as principais vítimas da VGB, 81% dos professores relatam também ter presenciado agressões verbais contra alunos da comunidade LGBTQIA+.

Comportamentos inadequados podem vir dos também docentes. Mais da metade dos professores afirma já ter presenciado colegas pro­ferindo comentários machistas e constrangedores sobre o corpo das alunas e 15% deles afirmam ter conhecimento sobre situações de assédio sexual de docentes contra estudantes do sexo feminino que ocorreram no último semestre letivo.

Em relação aos impactos na vida dos estudantes, 86% dos professores entrevistados acreditam que a VBG afeta negativamente a trajetória escolar das meninas e 71% afirmam já ter notado esses impactos negativos.

Apesar disso, é flagrante o despreparo dos docentes para lidar com a VBG. Entre os participantes da pesquisa, apenas um terço relatou a realização de palestras ou seminários sobre o tema para os docentes no último ano letivo. Contudo, 99% deles acre­ditam que a escola deve prevenir a violência ba­seada no gênero de algu­ma forma e 77% gostariam de receber mais informações sobre o tema.

PARA LIDAR COM A VBG

A pesquisa também identificou as principais lacunas que impedem que as escolas brasileiras combatam eficazmente a VBG e se tornem, de fato, espaços saudáveis e acolhedores. Destacam-se dificuldades como a resistência institucional em abordar temas considerados “sensíveis” e falta de preparo, apoio e diretrizes claras para que educadores se sintam seguros e amparados ao enfrentar essa realidade. Algumas das propostas trazidas pela pesquisa são: formação continuada, criação de espaços seguros e participativos e transformação do ambiente escolar, entre outras.

SOBRE A SERENAS

Fundada em 2021 por Amanda Sadalla (Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford) e Stefania Molina (Doutora pela Hertie School), a Serenas é uma organização suprapartidária e sem fins lucrativos que atua para prevenir violências baseadas em gênero no Brasil.

Em parceria com governos (a nível municipal, estadual e federal), organismos internacionais e diversas organizações da sociedade civil, a Serenas baseia suas atividades em três pilares: educação para prevenção da violência, qualificação de agentes públicos para acolhimento humanizado às sobreviventes de violência sexual e doméstica e produção de conhecimento que ampliam e qualificam o debate público.

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