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24 de abril de 2026

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Apenas 1 em cada 10 alunos sabe o que é COP 30, revela pesquisa

Crédito da foto: Freepik

Desconhecimento de estudantes sobre mudanças climáticas nas escolas evidencia a urgência de implementar, de forma efetiva, a Lei 14.926/2024, que torna obrigatória a educação climática no país 

Em meio à COP 30, sediada em Belém (PA), uma nova pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação (FPME), em parceria com o Equidade.info, traz um alerta: apenas 1 em cada 10 estudantes brasileiros sabe o que é a COP 30. O levantamento, realizado entre agosto e setembro de 2025, revela um cenário preocupante de desconhecimento sobre mudanças climáticas e aponta que a educação ambiental nas escolas ainda não prepara os jovens para enfrentar os desafios da crise climática.
 

Segundo o estudo, embora sete em cada dez estudantes afirmem já ter ouvido falar em mudanças climáticas, apenas um terço consegue explicar o que o termo significa, enquanto outro um terço admite não saber nada sobre o tema.
 

Mais de 70% dos alunos relataram ter vivido dias de calor extremo – o evento climático mais percebido em 2025 -, mas 64% consideram que a escola os prepara pouco ou nada para lidar com essas situações. Entre os professores, a percepção é ainda mais crítica: 69% acreditam que as escolas não preparam adequadamente os estudantes para enfrentar os efeitos do aquecimento global.
 

Para a deputada Socorro Neri (PP/AC), membro da Frente Parlamentar Mista da Educação, a escola ainda não consegue conversar com os jovens sobre a crise climática como deveria. “A maioria já sente na pele o calor excessivo, a falta de água, as enchentes, mas não se sente preparada para lidar com isso. E só uma parte muito pequena sabe o que é a COP 30. Isso acende um alerta: educação climática não é detalhe, é assunto central, que precisa ser implementado de verdade nas redes de ensino, e não ficar só no discurso”, lembra.
 

Os resultados reforçam a urgência de tornar a educação climática um eixo estruturante da formação escolar e apontam caminhos para avançar, como aperfeiçoar a implementação nos currículos, ampliar políticas de formação docente continuada e aproximar a teoria da realidade local dos estudantes.
 

A pesquisa também evidencia fortes desigualdades regionais. O Norte concentra os estudantes (27%) e professores (77%) mais informados sobre a COP 30, enquanto o Nordeste apresenta os menores índices de conhecimento entre os alunos (4%) e docentes (52%). O estado de Goiás chama atenção por registrar níveis de informação superiores até mesmo aos do Pará, sede da conferência, com 73,6% contra 55,4%, respectivamente, entre os estudantes. O conhecimento varia conforme o nível de ensino e a rede escolar. Entre os alunos da rede privada, a proporção dos que sabem o que é a COP 30 é quatro vezes maior do que os da rede pública.
 

Além disso, 53% dos professores relatam não receber suporte pedagógico para trabalhar o assunto, e dois terços dos gestores reconhecem que o tema segue tratado de forma insuficiente nos planejamentos escolares.

Coordenador do Equidade.info e docente da Stanford Graduate School of Education, o professor Guilherme Lichand, responsável pela pesquisa em parceria com a Bancada da Educação, ressalta o déficit de formação ambiental e o risco de uma geração sem preparo para enfrentar a crise climática.
 

“A pesquisa mostra que 20% dos estudantes de escolas públicas dizem não saber como cuidar do planeta, contra apenas 6% das escolas particulares. Nos dois casos, quando enumeram ações sustentáveis, há um predomínio absoluto de mudanças na esfera individual – como tomar banho mais rápido ou separar o lixo. Se essa conscientização colabora, inclusive para a formação de cidadãos mais engajados, na prática deixa em segundo plano mudanças estruturais, como a redução da poluição pelas grandes empresas, incentivos governamentais a tecnologias verdes, e a precificação adequada do carbono. Num país em que menos de 25% dos adultos chegam à universidade, não pode ser o caso que nossas escolas deixem para a educação pós-secundária discussões tão centrais para o Brasil e para o mundo”, diz.
 

Lei sancionada em 2024 ainda não é efetiva
 

A discussão ganha relevância no contexto da Lei 14.926/2024, que determina que, a partir de 2025, todas as escolas brasileiras passem a abordar em sala de aula os temas “mudanças do clima” e “proteção da biodiversidade”. A pesquisa, no entanto, indica que a implementação da norma ainda é incipiente.
 

No Congresso Nacional, outros projetos reforçam essa agenda, como o PL 5622/2023, que busca integrar a educação ambiental à saúde humana e à justiça climática, tornando-a obrigatória em todos os níveis de ensino; o PL 2225/2024, que assegura o direito de crianças e adolescentes de conviver com a natureza, incentivando políticas para ampliar áreas verdes nas escolas; e o PL 2809/2024, que dentre outras medidas, permite usar os recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente para programas de capacitação e educação para as situações de emergência decorrentes de eventos climáticos extremos, aprovado nesta semana, no pacote de proposições que a Câmara dos Deputados analisa em decorrência da realização da COP 30.
 

“Professor e escola não precisam de mais cobrança, precisam de apoio. A pesquisa mostra que o tema aparece na escola, mas de forma muito tímida. Falta formação continuada, material didático acessível e tempo no currículo. Se o professor tem suporte, ele transforma esse assunto em projeto, em debate, em trabalho de campo, conectando mudanças climáticas com a realidade do bairro, da cidade, da comunidade. É isso que faz sentido para o estudante e é assim que a gente forma, de fato, um cidadão climático”, conclui a deputada Socorro Neri.
 

O levantamento ouviu 3.127 alunos, 372 professores e 210 gestores de 198 escolas públicas e privadas em todas as regiões do país.

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