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05 de março de 2026

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Confira entrevista exclusiva com o médico baiano Joaquim Lopes, um dos pioneiros em medicina reprodutiva no país

“Ambos os sexos são igualmente responsáveis pela gravidez”, afirma Joaquim Lopes.

Crédito da foto: Divulgação

Um dos pioneiros em medicina reprodutiva no país, o ginecologista baiano Joaquim Lopes fundou há 23 anos o Cenafert Salvador (hoje, a clínica Huntington Cenafert integra um dos principais grupos de Reprodução Humana do país) e ajudou milhares de pacientes a realizarem o sonho de ter filhos, trazendo ao mundo mais de 3.500 bebês.

Com formação em Saúde Reprodutiva pelo Johns Hopkins University (EUA) e em Reprodução Assistida pelo Instituto Dexeus de Barcelona (Espanha), Joaquim Lopes também deu colaborações importantes para várias instituições, tendo sido presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), presidiu também a Comissão Nacional de Reprodução Humana da FEBRASGO e participou, como editor, de quatro livros na área de Reprodução Humana.

Capítulo vivo da Reprodução Humana no Brasil, o médico foi o responsável pela primeira gestação com óvulos compartilhados no país, uma revolução que ampliou as indicações dos tratamentos de medicina reprodutiva, permitindo que mulheres com baixa reserva ovariana ou doenças genéticas e casais homoafetivos masculinos possam ter filhos.

O médico conversou com o portal Nidde Digital e esclareceu várias questões sobre infertilidade, condição que atinge cerca de 17,5% da população global em idade reprodutiva, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

1) O que caracteriza a infertilidade?

A infertilidade é caracterizada pela ausência de gravidez em um casal com vida sexual ativa e que não usa medidas anticonceptivas por um período de um ou mais anos.

No passado, a reponsabilidade pela infertilidade era sempre atribuída à mulher, mas, hoje, já está comprovado que a responsabilidade pela gravidez deve ser compartilhada igualmente pelos dois sexos. Estima-se que cerca de 35% dos casos de infertilidade podem ser atribuídos à mulher, outros 35% são de responsabilidade do homem, 20% estão relacionados a ambos e 10% são de causas desconhecidas. Quando um casal não consegue ter filhos naturalmente e vai buscar ajuda especializada, a investigação da infertilidade deve ser feita sempre pelos dois sexos.

2)   Quando os tratamentos de reprodução assistida podem ser indicados?

Hoje, a medicina reprodutiva ajuda não apenas aos casais que sofrem de infertilidade, mas também as mulheres e homens que desejam ter filhos de maneira independente, assim como os casais homoafetivos. 

Com os avanços da sociedade, a reprodução assistida ganhou um papel fundamental para esses novos modelos familiares.

Além disso, técnicas como a criopreservação possibilitam preservar a fertilidade nos casos de mulheres que planejam ter filhos no futuro ou para pacientes que vão se submeter a alguns tipos de tratamento oncológico que podem comprometer a fertilidade.

3) Hoje as mulheres estão cada vez mais adiando a maternidade. Qual o conselho para uma mulher que já passou dos 30 e pretende ser mãe no futuro?

O relógio biológico é um dos fatores naturais que mais afetam a fertilidade feminina já que o pico de fertilidade da mulher é entre os 20 e 25 anos de idade e, a partir dos 35 anos, há um declínio significativo e progressivo da sua capacidade reprodutiva.

A realidade de hoje é que muitas mulheres chegam no consultório querendo ser mães já numa idade mais avançada e sem nunca ter avaliado a sua condição de fertilidade antes. O ideal é que mulheres que atingiram 30 anos de idade e que sonham em ser mães no futuro ainda indefinido façam um aconselhamento reprodutivo para avaliar sua condição de fertilidade. Além da consulta com especialista, que vai avaliar o histórico familiar da paciente, hábitos de vida que podem comprometer a fertilidade e a regularidade do seu ciclo menstrual, dentre outros fatores, a mulher passa também por exames de sangue e de imagem para identificar possíveis fatores de risco para infertilidade, como questões hormonais, reserva ovariana e infecções que podem comprometer o aparelho reprodutor.

Uma alternativa que deve ser levada em conta é o congelamento de óvulos através da técnica de vitrificação, mas é importante que ele seja feito até os 35 anos de idade, uma vez que óvulos mais jovens e em maior quantidade aumentam as chances de uma fertilização bem sucedida.

4) Quanto tempo é possível esperar para que a gravidez aconteça naturalmente antes de buscar ajuda especializada?

Uma mulher com menos de 30 anos e vida sexual ativa, que deseja ser mãe, pode esperar até dois anos para que aconteça a gravidez se ela já foi avaliada por um especialista e não apresenta nenhum problema que possa afetar sua fertilidade. Caso a mulher tenha mais de 30 anos não deve aguardar mais que um ano para iniciar uma investigação com o especialista. Se atingiu 35 anos, o prazo de espera não deve ultrapassar seis meses. Após os 40 anos se a mulher deseja engravidar deve, de imediato, iniciar a investigação da sua capacidade fértil.

5) Em quais casos, a Fertilização in Vitro com óvulos doados pode ser indicada?

A gestação com óvulos doados é indicada nos casos em que a mulher não possui reserva ovariana suficiente para engravidar ou quando ela possui doenças genéticas e alto risco de transmiti-las para os filhos. Nesses casos, a futura mãe recebe o óvulo de uma doadora anônima e, a partir daí, é realizado o tratamento de Fertilização in Vitro. A doadora dos óvulos deve ser saudável, ter no máximo 37 anos de idade, possuir uma boa reserva ovariana e não ter nenhuma doença genética nem Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). A doadora passa por uma criteriosa avaliação de saúde antes da doação de seus gametas.

A doação de óvulos também é indicada no caso de casais homoafetivos masculinos que querem ter filhos. Nesses casos, além dos óvulos doados, o casal vai precisar de um útero de substituição. 

6) Como aumentar as chances de uma gravidez espontânea?

Além das consultas e exames de rotina para mulheres e homens, visando manter a saúde reprodutiva em dia, a adoção de hábitos saudáveis pode fazer a diferença.

Não fumar, manter-se no peso adequado, praticar atividade física regular, controlar o estresse e a ansiedade, dormir bem, ter uma alimentação equilibrada, manter uma vida sexual saudável com uma frequência média de três relações por semana, saber o período fértil da mulher, e evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas são algumas das medidas que podem aumentar as chances de uma gravidez natural.

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