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05 de março de 2026

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Avanços da tecnologia e nova geopolítica exigem diálogo intercontinental, diz Ricardo Campos, do Dinter

Advogado afirma que convergência regulatória e integração entre setores estratégicos impulsionam uma nova agenda de cooperação internacional / Crédito da foto: Divulgação Dinter

Em um cenário de reconfiguração geopolítica e avanço cada vez mais acelerado da digitalização, decisões técnicas deixaram de ser apenas técnicas. Elas passaram a produzir efeitos imediatos sobre cadeias produtivas, fluxos financeiros e relações diplomáticas, segundo Ricardo Campos, fundador do Dinter – Diálogos Intercontinentais.

A interdependência entre Estado, mercado e tecnologia, diz ele, tornou inevitável a articulação de setores diversos como saúde, finanças, energia, justiça e telecomunicações em um mesmo palco. “A partir do momento que o mundo passa a ser digital, ele passa a ser um só”, afirmou nesta segunda-feira, 2 de março, após participar da  sessão de abertura do Regulation & Investment – Frankfurt 2026.

Segundo Campos, a escolha de regulação e investimento como eixo comum do encontro decorre dessa transformação estrutural, porque são esses dois vetores que atravessam todos os setores estratégicos e conectam decisões técnicas a efeitos econômicos e políticos concretos. Em outras palavras, discutir investimento hoje implica discutir o desenho regulatório que sustenta esse investimento.

É nesse contexto que a digitalização ganha centralidade. A circulação instantânea de informação e a integração dos mercados tornaram os impactos ainda mais imediatos e amplos. “Há uma sincronia das atividades culturais, econômicas e da saúde, por exemplo. O debate também é único”, afirmou. Segundo ele, esse novo ambiente tecnológico eliminou a compartimentação tradicional dos setores e reduziu o tempo entre decisão e consequência. Uma decisão regulatória tomada em um país passa a repercutir quase instantaneamente em outros mercados.

Isso coincide justamente com a proposta do Dinter, cujo objetivo é inserir o Brasil no debate global em alto nível, a partir de suas próprias experiências regulatórias e institucionais. “A ideia é levar a voz do Brasil para o mundo”, disse, destacando que, em áreas como sistema financeiro e saúde suplementar, o país apresenta modelos que em alguns casos superam experiências internacionais. A proposta, afirma, é sair da lógica defensiva e posicionar o Brasil como formulador de agenda regulatória, e não apenas como receptor de padrões externos.

Alemanha como eixo estratégico

A escolha da Alemanha como sede do Regulation & Investment – Frankfurt 2026 não foi apenas simbólica. Campos vive no país há 16 anos e leciona na Faculdade de Direito de Frankfurt, mas aponta razões estratégicas mais amplas. “A Alemanha é a locomotiva econômica e política da União Europeia”, afirmou. Com a consolidação do acordo entre União Europeia e Mercosul, ele vê na aproximação um movimento estrutural. “Estamos desenvolvendo um novo mercado comum”, disse. “O momento é de antecipação institucional, com alinhamentos que terão impacto direto sobre investimentos e comércio nos próximos anos.” Para ele, realizar o primeiro grande evento na Alemanha é reconhecer o peso econômico do país e a centralidade do eixo Europa-Mercosul na reorganização das cadeias globais.

O pano de fundo do encontro é um mundo menos previsível. Campos avalia que há um enfraquecimento dos núcleos multilaterais tradicionais e uma crescente força unilateral dos Estados. “A gente tem hoje uma reestruturação geopolítica no mundo”, afirmou. Nesse quadro, decisões regulatórias nacionais passaram a ter repercussão internacional quase imediata, o que exige maior coordenação prévia entre governos e setores produtivos. A dificuldade de consensos amplos nos fóruns multilaterais tradicionais amplia o peso de articulações bilaterais e intercontinentais.

Diante desse cenário, fóruns que aproximem diplomatas, setor produtivo e academia ganham relevância estratégica. “Buscamos trazer tomadores de decisão, o setor produtivo e a academia para fomentar decisões de alto nível”, disse. A intenção é reduzir assimetrias de informação e aproximar diagnósticos antes que divergências regulatórias produzam custos econômicos. Essa interdependência, acrescenta, deixou de ser hipótese teórica e passou a orientar a formulação de políticas públicas e decisões empresariais.

Medir sucesso pelo diálogo

Com isso, aposta, agora, é que os debates iniciados em Frankfurt não se encerrem na programação oficial, mas avancem para agendas bilaterais e cooperações estruturadas. “Se a gente puder fomentar de forma positiva que cada setor se desenvolva, essa é a nossa maior vitória”, afirmou.

Os projetos para o futuro são ambiciosos. A proposta é alternar Frankfurt com sedes em outros continentes a cada edição. “Dinter significa diálogos intercontinentais”, lembrou. A alternância, segundo ele, é parte da estratégia para manter o fluxo de interlocução entre centros decisórios distintos.

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