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Especialista defende fortalecimento da avaliação de tecnologias, superação da desconfiança entre setores e preparação estrutural do país para o envelhecimento da população
A incorporação de novas tecnologias à saúde é inevitável, mas cobra seu preço. Para Pablo Meneses, vice-presidente executivo da Rede D’Or, o desafio central do Brasil não está em frear a inovação, e sim em criar mecanismos sólidos para equilibrar acesso, benefício clínico e sustentabilidade financeira. “A inovação de tecnologia na área de saúde é muito importante. Mais que isso, ela é inevitável”, afirmou, ao defender que o país precisa aprimorar seus instrumentos de avaliação e coordenação institucional.
Segundo ele, o avanço tecnológico salva vidas e alivia o sofrimento humano, mas pressiona orçamentos públicos e privados. A saída, argumenta, passa por dois mecanismos já consolidados internacionalmente. “A inovação pressiona realmente os custos, e a gente precisa ter um equilíbrio entre o benefício e o custo”, disse.
Para isso, o mundo já trouxe dois mecanismos muito importantes, disse o executivo. O primeiro deles é a Avaliação de Tecnologias em Saúde, a ATS, que analisa segurança, eficácia e custo-benefício de medicamentos e terapias antes de sua incorporação ao sistema de saúde. “A ATS vai avaliar a segurança, vai avaliar o benefício e vai avaliar se aquele medicamento, se aquela terapia, se aquela inovação pode ajudar na cura das doenças”, explicou.
Meneses concedeu esta entrevista na Alemanha, durante sua participação no Regulation & Investment – Frankfurt 2026, evento organizado pelo Dinter em parceria com a Universidade Goethe de Frankfurt am Main.
Meneses avalia que o Brasil está em posição relevante nesse campo. Cita a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) como referência internacional. Reconhece ainda os avanços na Agência Nacional de Saúde Suplementar. Ainda assim, defende que o país deve manter diálogo permanente com experiências consolidadas no exterior. “A gente precisa se inspirar nas referências, como são as agências inglesas, australianas, canadenses.”
O “muro de Berlim” da saúde brasileira
Para além dos instrumentos técnicos, o entrevistado aponta um obstáculo político e cultural para a modernização do sistema: a desconfiança mútua entre setor público e setor privado. “Há no Brasil um certo preconceito. Tanto do setor público com o setor privado e do setor privado com o setor público”, disse.
A solução, na sua avaliação, exige mudança de postura. “Precisamos derrubar o muro de Berlim dessa relação”, afirmou, em referência ao processo de integração alemão nos anos 1990. Para ele, sem sinergia entre os dois lados, o sistema continuará fragmentado e menos eficiente do que poderia ser.
Essa articulação, sustenta, é condição não apenas para melhorar a saúde, mas também para impulsionar o desenvolvimento econômico. “Só vamos conseguir evoluir economicamente se fizermos isso”, declarou.
Envelhecimento pressiona sistema
Outro ponto de preocupação é o envelhecimento da população. Meneses reconhece que viver mais é uma conquista, mas alerta que o Brasil ainda não respondeu de forma estruturada à inversão da pirâmide etária. “Esse é um fenômeno mundial, o envelhecimento da população, que é muito bom, significa que a gente está vivendo mais e significa que a gente precisa também viver melhor”, disso.
Ele considera que o sistema de saúde brasileiro tem capacidade de absorver essa demanda crescente, mas que a resposta não depende apenas da saúde. “O sistema de saúde é apenas uma dessas partes. A gente precisa conjugar saneamento básico, economia e outras áreas para atender cada dia mais a nossa população longeva.”
Cooperação internacional como atalho
Ao comentar o intercâmbio entre América Latina e Europa em eventos técnicos, como o Regulation & Investment – Frankfurt 2026, Meneses foi enfático sobre o valor do diálogo internacional. “Esse é um dos eventos de maior qualidade técnica de que eu já participei”, afirmou, destacando a presença de autoridades acadêmicas e executivas com experiência global. Para ele, o contato com especialistas europeus amplia repertórios e acelera aprendizados. “Isso traz um conhecimento muito importante”, disse, acrescentando que a troca é de mão dupla e que o Brasil tem contribuições a oferecer.



