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Especialista com mais de três décadas em desenvolvimento clínico afirma que a América Latina pode ganhar protagonismo na próxima década
A forma como novos medicamentos são testados no mundo deve passar por mudanças profundas na próxima década. O avanço da inteligência artificial, novas exigências regulatórias e a busca por maior eficiência estão transformando a pesquisa clínica global, segundo avaliação do especialista em desenvolvimento clínico Charles Schmidt.
Relatórios da indústria farmacêutica e de organizações de pesquisa clínica, como a Anvisa e a Interfarma, apontam uma transição para modelos mais digitalizados e orientados por dados. Assim, a próxima década deve representar uma mudança importante na forma como estudos clínicos são conduzidos em todo o mundo.
“A pesquisa clínica sempre evoluiu em ciclos. Já passamos por crises regulatórias, colapsos financeiros, transformações na indústria e até uma pandemia que reconfigurou operações globalmente. Mas a próxima década parece estruturalmente diferente”, afirma.
De acordo com o especialista, patrocinadores — principalmente grandes empresas farmacêuticas e biotecnológicas — passaram a exigir qualidade de dados, eficiência operacional e previsibilidade desde o início dos estudos clínicos.
O uso de dispositivos vestíveis para monitoramento contínuo de pacientes, aliado a novos marcos regulatórios e ao avanço da digitalização dos estudos, também contribui para essa mudança estrutural no setor.
Nesse cenário, centros de pesquisa precisarão demonstrar maturidade tecnológica, governança e capacidade de adaptação para permanecer competitivos. Outro fator que tende a transformar o setor é a consolidação da inteligência artificial como infraestrutura operacional, deixando de ser apenas um projeto experimental.
“A inteligência artificial passa a fazer parte da engrenagem cotidiana da pesquisa clínica. Mas há algo que não pode ser automatizado: confiança”, afirma.
Segundo ele, a relação de confiança entre participantes, pesquisadores e patrocinadores continua sendo um elemento central para o sucesso dos estudos clínicos.
Pesquisa clínica no Brasil
O Brasil já é um dos principais países da América Latina na condução de estudos clínicos e possui grande potencial de expansão.
De acordo com o Centro Internacional de Pesquisa Clínica (CIPES), o Brasil já está entre os 20 países com maior volume de estudos clínicos no mundo. Esse avanço ocorreu após a nova Lei de Pesquisa Clínica, decretada em outubro de 2025, que levou o país a adotar modelos internacionais mais modernos, com potencial de inserção no grupo dos 10 mais relevantes da área.
As mudanças na área e na legislação visaram atrair mais investimentos em inovação, fortalecer a produção de medicamentos e diagnósticos, além de gerar empregos e renda no setor da saúde.
Para Schmidt, avanços regulatórios recentes e o aumento da capacidade tecnológica de centros de pesquisa podem ampliar ainda mais a participação de pesquisadores brasileiros em estudos internacionais nos próximos anos.
Nesse contexto, a América Latina vem atraindo investimentos importantes, com destaque para iniciativas de grandes farmacêuticas e parcerias entre Santas Casas na pesquisa clínica, impulsionando estudos em áreas como oncologia e doenças crônicas.
“Diversos países da América Latina têm diversidade populacional, capacidade de recrutamento e vêm avançando na maturidade regulatória. Se combinarmos tecnologia com excelência operacional, podemos ganhar protagonismo global na próxima década.”
Para Schmidt, a próxima década deve premiar instituições capazes de combinar tecnologia, governança e confiança na condução de estudos clínicos. “Não será apenas uma disputa por velocidade, mas por credibilidade e capacidade de adaptação”, conclui.
Sobre o especialista Charles Schmidt atua há mais de três décadas em desenvolvimento clínico na América Latina e em projetos globais e é docente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP).



