*Por Lucas Figueiredo Baisch, docente nos cursos de Engenharia Civil e Engenharia da Produção no Centro de Ciências e Tecnologia (CCT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) / Crédito da foto: Victor Hugo Furman (CAUPR)
O urbanismo mundial está de luto e, infelizmente, fomos o epicentro dessa perda. O arquiteto chinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, considerado o “pai” das cidades-esponja, faleceu tragicamente no Brasil. O acidente aéreo ocorreu em setembro deste ano, na região de Aquidauana (MS), no Pantanal. Com ele, faleceram o piloto Marcelo Pereira e os cineastas Luís Fernando Feres e Rubens Crispim Jr.
A morte de Yu é uma tragédia, pois a equipe estava realizando um documentário sobre as percepções do arquiteto chinês sobre o bioma brasileiro, que ele considerava a “esponja natural” perfeita, exemplo para suas pesquisas e projetos. Sua agenda incluiu a primeira Palestra Magna da Conferência Internacional do Conselho de Arquitetura e Urbanismo 2025, no Centro de Convenções em Brasília, e a Conferência de Abertura da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, realizada em 19 de setembro deste ano, na Oca do Parque Ibirapuera. Em sua fala no Brasil, ele se dirigiu diretamente a nós, afirmando: “Eu vejo o Brasil como a última esperança para o mundo consertar o planeta”.
As expectativas de Yu sobre o Brasil residiam em suas pesquisas e projetos de Cidades-Esponja. A filosofia é simples: conviver com a água em vez de combatê-la. O modelo desse tipo de cidade, que se tornou política nacional na China em 2013, propõe o oposto da engenharia convencional: em vez de expulsar a chuva o mais rápido possível com canos e canais, a cidade deve ser projetada para absorver, filtrar e armazenar a água.
O processo funciona como uma esponja doméstica e se baseia em três grandes estratégias: a primeira é conter a água assim que ela toca o solo, por meio de grandes áreas permeáveis, telhados verdes, jardins de chuva e lagos artificiais; a segunda é desacelerar e “renaturalizar” os cursos dos corpos d’água e devolver as planícies de inundação, em vez de canalizar rios em linhas retas de concreto, o que acelera a correnteza; e a terceira estratégia é adaptar as cidades para que tenham áreas alagáveis, como parques ou praças-piscina, para onde a água possa escoar sem causar destruição.
Essa filosofia não era teórica. O escritório do professor Yu, o Turenscape, aplicou o conceito em mais de mil projetos em 250 cidades. Um exemplo paradigmático é o Houtan Park, em Xangai. Uma antiga área industrial degradada às margens do rio Huangpu, transformada em um parque linear de quase 2 km. O projeto utiliza terraços e zonas úmidas que filtram a água poluída do rio e criam um ambiente resiliente que absorve as cheias, ao mesmo tempo em que atrai a biodiversidade.
Outro projeto de referência mundial é o Parque Florestal Benjakitti, em Bangkok, Tailândia. Construído sobre uma antiga fábrica de tabaco, o parque funciona como um grande pulmão verde e bacia de contenção, com um “labirinto” de lagos e ilhas capaz de armazenar enormes volumes de água durante as monções. Na China, o parque Yanweizhou ficou famoso por demolir muros de concreto que canalizavam o rio, substituindo-os por um parque alagável com passarelas elevadas que celebra a enchente, permitindo que a água se espalhe sem destruir.
E de que modo podemos avançar com esse modelo no Brasil? Para que esse modelo avance, a transformação urbana depende de uma nova mentalidade de nossos profissionais e gestores públicos. A solução é “virar a chave”: em vez de combater a água, devemos aprender a conviver com ela. Embora pareça óbvio, já que dependemos dela para sobreviver, essa mudança de paradigma é essencial.
O legado de Kongjian Yu é um manual: devemos redescobrir nossos rios e adotar soluções baseadas na natureza, como pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e parques lineares que funcionem como planícies para receber as águas das chuvas. Assim, vamos enobrecer o legado do homem que nos chamou de “a última esperança para o planeta” e fazer um desenvolvimento urbano aliado da natureza e prevenir novas tragédias.



