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Reconhecimento transversal de crianças faz da COP realizada em Belém um marco estrutural das políticas climáticas globais para 1/3 da população mundial
A COP30, nos rascunhos atuais do pacote de Belém, ficará registrada como o momento em que a infância entrou definitivamente e de forma transversal na lista de prioridades da diplomacia climática internacional. Além da inclusão histórica — antes e durante o evento — de crianças e adolescentes em consultas e escutas, debates, painéis e atividades oficiais, esta edição marcou um avanço concreto: os textos atuais da Conferência trouxeram o resultado mais significativo para proteger esse público frente a um clima saudável para seu futuro e seu presente.
O Alana, organização da sociedade civil que articula essa mobilização desde a COP26, considera os resultados do evento como uma mudança estrutural e exponencial. E, neste contexto, celebra que a COP30 inaugura uma nova era. “Esta foi, de fato, a primeira COP das Crianças. Elas estiveram em tudo: na preparação, na participação, na sensibilização da sociedade e, pela primeira vez, também nas decisões estratégicas. Quando a infância entra em todas essas etapas, a conferência traz para dentro da sala de negociações a responsabilidade comum que temos com o melhor interesse das crianças”, destaca JP Amaral, gerente de Natureza do Alana.
Esse resultado corresponde ao movimento exponencial que marcou as últimas conferências climáticas. Nos primeiros 16 anos das COPs, apenas duas menções a crianças apareceram nos documentos oficiais. Já nos últimos seis anos, foram 77 menções, um crescimento que evidencia a pressão global para que o melhor interesse das crianças seja tratado como consideração primordial. “Não são apenas menções, mas direções estratégicas, distribuídas de forma integrada nos documentos mais relevantes desta edição, reafirmando que as políticas climáticas precisam considerar a infância em todas as agendas do Acordo de Paris”, diz Amaral.
Na pauta de Transição Justa, os negociadores reconheceram a importância da participação significativa de crianças e adolescentes e o papel do sistema educacional para garantir a transição para uma economia de baixo carbono. Já no GAP (Gender Action Plan), a agenda avançou de uma única menção a “menina”, em 2014, para nove citações na versão atual, consolidando a centralidade das meninas na interseção entre gênero, clima e infâncias. Nos indicadores da meta global de adaptação (GGA), também houve progresso, com a inclusão da contribuição das crianças para a adaptação e a previsão de dados específicos para avaliar sua realidade.
Ainda, o Belém TIP (Technological Implementation Programme) reconheceu, de forma inédita, as necessidades e circunstâncias especiais das crianças e adolescentes, reforçando a responsabilidade comum central de olhar para as crianças na cooperação internacional de transferência de tecnologias.
Pela primeira vez na história o documento do Mutirão Global, texto final da Presidência da Conferência, afirma a determinação dos países em “proteger o sistema climático para as gerações presentes e futuras, levando em conta a importância da equidade intergeracional para crianças e jovens”. Para Amaral, trata-se de um reconhecimento inédito e de enorme relevância política.
“As COPs não se fazem apenas de decisões formais. Elas também refletem e orientam a forma de fazer política climática no mundo. Nesse sentido, o Mutirão Global pelas Crianças mobilizou 130 mini COPs em 10 países e resultou na entrega de 1.300 cartas de crianças brasileiras a delegados, acompanhadas de uma carta do Presidente da COP30, André Corrêa do Lago. Essas ações marcaram profundamente esta conferência, simbolizando uma nova forma de engajar o público e a participação infantil e juvenil”, avalia.
Um avanço importante foi a realização do diálogo intergeracional de alto nível, que reuniu mais de 40 crianças e lideranças mulheres, incluindo a Presidência do evento. O salto qualitativo nas menções confirma uma tendência que se intensificou nos últimos anos. Um estudo realizado pelo Alana e pela La Clima em junho deste ano, mostra que entre 2018 e 2024, documentos da UNFCCC contabilizaram 77 menções a children, 123 a youth, 13 a girl e 8 a young, evidenciando a crescente pressão global por considerar a infância nas políticas climáticas.
Para 2026, na COP31, a agenda de ACE (Action for Climate Empowerment) ganhará ainda mais peso. Um diálogo técnico aprovado em Belém abrirá caminho para que engajamento e educação climática se tornem temas centrais na próxima conferência, um avanço diretamente herdado desta edição. “A COP30 finalmente reconheceu que proteger o clima significa proteger crianças e adolescentes agora e não num futuro distante. E isso muda tudo”, ressalta Amaral.
Segundo ele, a presença de crianças e adolescentes não foi protocolar, mas transformadora: “Quando uma menina indígena de 12 anos fala sobre como o desmatamento afeta a escola dela, ou quando estudantes apresentam tecnologias para resfriar salas de aula na Amazônia, estamos diante de um tipo de liderança que o mundo não pode mais ignorar”.
Para além da agenda da infância, é importante ressaltar que faltou no pacote de decisões Belém uma continuidade do engajamento dos países para a transição para longe dos combustíveis fósseis. “A proteção das crianças frente à crise climática só irá acontecer integralmente se tivermos um futuro climático saudável que não dependa dos fósseis como base da nossa economia”, finaliza.
Ações do Alana em Belém
O Dia da Educação, coordenado pelo Alana, reuniu autoridades, especialistas, organismos internacionais e estudantes para debater a inserção da pauta climática nos sistemas de ensino, a adaptação das escolas e a educação baseada na natureza. Ao final do evento, a declaração “Crianças no centro da ação climática” consolidou um compromisso nacional envolvendo governadores, prefeitos e parlamentares, reforçando que a adaptação climática precisa começar pelos territórios da infância.
Na Blue Zone, o Diálogo Intergeracional de Alto Nível, promovido em parceria com a Presidência da COP30, trouxe para a mesa líderes como Ana Toni, Mary Robinson e Hindou Oumarou, ao lado de delegações juvenis do UNICEF, Plant-for-the-Planet e do Prêmio Criativos Escola + Natureza. Ali, foi apresentado o documento internacional “Children and the UN Climate COPs”, que recomenda ampliar a participação e garantir que os direitos da infância orientem as políticas climáticas globais.
As soluções propostas por crianças e adolescentes também ganharam espaço nas áreas públicas da conferência. Projetos premiados em 2025 pelo Criativos Escola + Natureza, representando os seis biomas brasileiros, mostraram iniciativas de reuso de água, recuperação de áreas verdes, filtros naturais para resíduos tóxicos, tecnologias sustentáveis e mobilização comunitária, evidenciando que a infância já cria respostas concretas para a crise climática.
Para Amaral, o conjunto de resultados, construído a partir dessas e de dezenas de outras iniciativas que colocaram crianças e adolescentes em posição de protagonismo ao longo da COP, confirma o caráter histórico da conferência. “Se esta foi a primeira COP das Crianças, é porque elas estiveram, de fato, na pauta, nos espaços de negociação e nos textos oficiais. Mostraram ao mundo que não existe transição climática possível sem sua participação ativa e sem a proteção de seus direitos”.
Com o legado estabelecido em Belém, o Alana defende que as próximas COPs devem consolidar a infância como prioridade permanente. Em 2026, a organização deve ampliar, ainda mais, suas iniciativas de educação climática, adaptabilidade escolar e ações que reduzam desigualdades socioambientais nos territórios onde vivem crianças, reforçando que a luta climática é, necessariamente, também uma luta pela proteção e direitos das infâncias e adolescências do Brasil e de todo o mundo.
Sobre o Alana
O Alana é um ecossistema de impacto socioambiental que trabalha para transformar as condições de vida das crianças e dos adolescentes no Brasil e no mundo. Atua em múltiplas frentes — educação, ciência, entretenimento e advocacy — para garantir os direitos das crianças e influenciar políticas públicas e culturais que afetam suas vidas no presente e no futuro. Formado pelo Instituto Alana, pela Alana Foundation e pela Maria Farinha Filmes, o ecossistema desenvolve iniciativas que vão da produção de conhecimento científico à criação de campanhas e conteúdos culturais, passando por articulação política e ações na justiça. Todas as suas organizações atuam de forma interligada e convergente, com foco na construção de uma sociedade mais justa, sustentável e inclusiva para as infâncias e as adolescências.



