Ludmilla Rattis no evento “Agricultura Tropical Regenerativa: Uma Resposta Brasileira à Crise Climática e à Segurança Alimentar Global”, na COP30 – Crédito da foto: Suellen Nunes / IPAM
Proposta defendida por governo brasileiro pretende criar caminho para abandonar o uso de petróleo, gás e carvão; IPAM sinaliza que implementação de um plano para o fim dos combustíveis fósseis pode ser decisiva para a proteção da Amazônia, a produção agropecuária e a segurança alimentar
- Transição para o fim dos combustíveis fósseis é crucial para conter o aumento da temperatura global e proteger a Amazônia, a produção agropecuária e a segurança alimentar, segundo pesquisadores do IPAM.
- O “mapa do caminho” defendido pelo Brasil na COP30 já reúne apoio de 82 países e é visto como essencial para garantir que a agricultura continue viável diante dos limites de adaptação às mudanças climáticas.
- O IPAM alerta que avançar na exploração de petróleo na Amazônia exige mais diálogo e transparência e propõe alternativa: royalties verdes, que promovem desenvolvimento econômico sem ampliar emissões.
A implementação de plano para fim dos combustíveis fósseis pode ser decisiva na proteção da Amazônia, para a produção agropecuária e segurança alimentar, apontam pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Defendida pelo governo brasileiro na COP30 (30ª Conferência das Partes, em inglês) o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis ganhou o apoio de 82 países apesar de não estar na pauta das negociações oficiais da Conferência.
“O Brasil tem feito articulações para o mapa do caminho sair das conversas informais e ir para negociações oficiais. Essas movimentações e o apoio internacional são muito bem-vindos. A implementação de uma transição para o fim dos combustíveis fósseis é essencial para impedir que a temperatura continue aumentando e para garantirmos que as florestas, a produção agropecuária e a segurança alimentar deixem de ser ameaçadas pelas mudanças climáticas”, avalia André Guimarães, diretor-executivo do IPAM e enviado especial da presidência da COP30 para a sociedade civil.
Produção agropecuária
Ludmila Rattis, pesquisadora do IPAM, estuda a relação entre floresta, agropecuária e mudanças climáticas. Ela explica por que a transição para longe dos combustíveis fósseis é importante para o Brasil e o mundo.
“O mapa do caminho para o fim do uso dos combustíveis fósseis é essencial para a gente continuar produzindo comida no futuro, porque há limites da adaptação da agricultura às novas condições climáticas e na mitigação também, pois se a temperatura continuar aumentando não sobrarão alternativas para o sistema agrícola”, aponta.
“Mesmo que a gente faça o uso de toda a tecnologia que temos hoje disponível para poder adaptar a agricultura as condições impostas pelas mudanças climáticas, não vamos conseguir solucionar tudo se não houver uma transição para o fim dos combustíveis fósseis. No Centro-Oeste, 35% das fazendas já estão fora do ideal climático e em 2060 serão 70%. Esses resultados fazem parte de uma pesquisa que considera a mudança climática global, causada principalmente pela emissão de combustíveis fósseis. Então, não tem solução para agricultura se não tiver phase out dos fossil fuels”.
Alternativa ao petróleo
O IPAM também alerta que o prosseguimento da exploração da Foz do Amazonas, após licença concedida pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), requer mais diálogo com sociedade civil e povos da floresta, além de maior transparência. O Instituto demonstrou em publicação científica que os royalties do petróleo não geram o desenvolvimento humano esperado e propôs royalties verdes como uma alternativa segura para o desenvolvimento econômico, para as populações e o meio ambiente.
“Avançar com a exploração de petróleo, em especial na Amazônia, é um tremendo contrassenso. Precisamos lembrar que o petróleo é carbono fóssil. Não está, até que seja explorado, na biosfera. Aumentar a emissão de combustíveis fósseis será o meio de acabar mais rapidamente com a vida no planeta e com as florestas que nos restam. Simples assim. E, mais ainda, achar que a proteção das florestas ou a redução das emissões de desmatamento podem compensar as emissões do petróleo, como vem sendo proposto, é o mesmo que tratar o alcoolismo com whisky. É preciso preservar florestas em um mundo livre de combustíveis fósseis”, indica Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM.



