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12 de março de 2026

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Estilo de vida e alimentação inadequada são principais fatores de risco do câncer colorretal

Consumo excessivo de alimentos ultraprocessados é um dos vilões da saúde gastrointestinal / Crédito da imagem: Freepik

A Bahia deve registrar 2170 novos diagnósticos da doença em 2026, de acordo com estimativa do INCA

Considerada uma doença associada ao estilo de vida, o câncer colorretal ou câncer de intestino é o segundo tipo de tumor mais frequente em homens e o terceiro em mulheres no Brasil (sem contar o câncer de pele não melanoma). De acordo com estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), 53.810 novos casos de câncer colorretal devem ser registrados no Brasil em 2026. Na Bahia, são estimados 2170 novos diagnósticos a cada ano, sendo 590 em Salvador. Globalmente, a previsão da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) é que o número de novos casos suba de cerca de 1,9 milhão, em 2020,  para 3,2 milhões por ano até 2040, um aumento projetado de 63% na incidência global.

O estilo de vida e a alimentação são considerados os principais fatores de risco da doença. “A obesidade sempre foi associada às doenças cardiovasculares, mas é importante saber que ela também é fator de risco para o desenvolvimento de vários tipos de câncer, dentre eles o colorretal”, explica o oncologista Eduardo Moraes, da Oncoclínicas. “Hábitos pouco saudáveis, como alimentação inadequada e sedentarismo, são os principais fatores de risco para esses tumores, além do histórico familiar, inflamações intestinais crônicas e presença de pólipos no intestino “, acrescenta.

O contexto é ainda mais preocupante num cenário onde 62,6% da população brasileira tem excesso de peso (sobrepeso) e 25,7 % sofre de obesidade, segundo dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) do Ministério da Saúde,  

 “Ter uma alimentação rica em fibras e alimentos in natura ou minimamente processados, limitar o consumo de carne vermelha, não fumar, praticar atividade física regular, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas são hábitos que contribuem para reduzir o risco de desenvolvimento da doença”, explica a oncologista Maria Cecília Mathias, da Oncoclínicas.

Sintomas não devem ser ignorados

Alterações no hábito intestinal (diarreia ou constipação) e no apetite, anemia, presença de sangue nas fezes, fraqueza, perda de peso sem causa aparente, desconforto ou dor abdominal são alguns dos sintomas que podem estar associados ao câncer de intestino. “Ao notar qualquer sintoma, é preciso buscar ajuda médica o quanto antes para uma investigação”, ressalta o oncologista Bruno Protásio, da Oncoclínicas..

Os sintomas do câncer colorretal, geralmente, surgem quando a doença já está mais avançada o que acaba levando a diagnósticos tardios e aumento da letalidade.  

Como, muitas vezes, a pessoa acometida pela doença pode não apresentar nenhum sintoma, o exame de colonoscopia para rastreamento da doença se torna mais importante ainda. “Quando o câncer colorretal é diagnosticado precocemente e tratado, a chance de cura pode ser superior a 90%”, destaca o oncologista Marco Lessa, da Oncoclínicas.

Rastreamento: colonoscopia salva vidas

O câncer colorretal, ou câncer de intestino, abrange os tumores que se desenvolvem na parte do intestino grosso chamada cólon e na sua porção final, o reto. 90% dos casos da doença se originam a partir de pólipos (lesões benignas que se desenvolvem na parede interna do órgão). A realização do exame de colonoscopia é a forma mais eficaz de diagnosticar esses tumores. Trata-se de um exame endoscópico do intestino grosso – cólon e reto – onde é introduzido um tubo com uma câmera na extremidade, permitindo detectar e remover pólipos ou tumores malignos em diversos estágios. A orientação é que o exame seja realizado, a primeira vez, entre os 45 a 50 anos, e repetido a cada cinco ou dez anos, de acordo com indicação médica, para pessoas assintomáticas e sem fatores de risco, ou seja, sem histórico de câncer de intestino ou pólipos na família, e doença inflamatória intestinal.     

“A ideia do rastreamento é permitir que tumores sejam detectados até em fase iniciais, quando o paciente não tem nenhuma suspeita da doença”, lembra a oncologista Mônica Kalile, da Oncoclínicas.

Nos casos de pacientes com histórico familiar e fatores de risco para a doença, é importante que o rastreamento comece mais cedo, justamente para que o paciente tenha todo acompanhamento médico necessário. “Nesses casos, a data de início e a frequência do exame de colonoscopia deve ser discutido com o seu médico”, afirma Eduardo Moraes.

Pesquisadores baianos trazem avanços no combate à doença

Dois estudos recentes liderados por oncologistas baianos trazem avanços para a abordagem terapêutica do câncer colorretal.

Uma pesquisa liderada pelo oncologista baiano Bruno Protásio reforçou a necessidade de maior atenção para alguns pacientes com câncer colorretal ou câncer de intestino. A pesquisa revelou que tumores colorretais localizados do lado direito têm um prognóstico pior que aqueles que se desenvolvem do lado esquerdo. A pesquisa foi publicada no jornal científico Clinical Colorectal Cancer e no portal da USP. O trabalho é resultado de uma tese de doutorado apresentada pelo médico no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo vinculado à Universidade de São Paulo (ICESP – USP).

“Fizemos o estudo com pacientes voluntários no Brasil e a conclusão veio consolidar um achado já visto através de pesquisas internacionais anteriores, só que agora com a população brasileira”, afirma Bruno Protásio.

A análise “Impacto prognóstico da localização do tumor primário no câncer colorretal estádio III – evidências do mundo real de uma coorte brasileira” – acompanhou mais de 250 pacientes com câncer de intestino grosso sem metástases quando diagnosticado, e que foram tratados com cirurgia seguida por quimioterapia complementar. Os voluntários foram acompanhados em média ao longo de 5 anos e, ao final do estudo, os autores identificaram que os pacientes que tinham tumores localizados no lado direito do intestino (tumores do ceco, cólon direito e ângulo hepático) apresentaram um pior prognóstico quando comparados com os tumores do lado esquerdo (tumores do ângulo esplênico, cólon esquerdo, retossigmóide e reto alto). “Isso reforça a necessidade de redobrar a atenção durante o acompanhamento oncológico destes pacientes com tumores de intestino localizados do lado direito”, destaca o autor da pesquisa.

Já a oncologista baiana Mônica Kalile realizou estudo inédito comparando a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) com terapias convencionais em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado. O adenocarcinoma é o tipo histológico mais comum de câncer colorretal, representando mais de 90% dos casos. O estudo é resultado de um trabalho de mestrado apresentado pela médica na Fiocruz Bahia.

A pesquisa concluiu que a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) apresenta respostas que superam quase três vezes os tratamentos convencionais, além de reduzir em mais de 50% a necessidade de retirada do esfíncter e o uso permanente da colostomia

A pesquisa retrospectiva incluiu 137 pacientes tratados entre janeiro de 2019 e agosto de 2023 em dois centros oncológicos: o Núcleo de Oncologia da Bahia (Oncoclínicas) e o Hospital Santa Izabel. Os pacientes foram divididos em dois grupos: 60 receberam TNT e 77 foram tratados com terapia Não-TNT. Os resultados mostraram que o grupo que recebeu o Tratamento Neoadjuvante (TNT) apresentou uma taxa de resposta completa de 28,3%, comparada a 11,6% no grupo que foi tratado com terapias convencionais (Não-TNT). A taxa de resposta patológica completa foi de 20,0% no grupo TNT contra 7,8% no grupo convencional. Além disso, observou-se uma tendência à maior preservação esfincteriana nos pacientes com câncer de reto distal tratados com TNT, aproximadamente o dobro. As taxas de toxicidade clínica e hematológica foram semelhantes entre os grupos, reforçando a segurança da abordagem intensificada.

“As taxas de resposta completa – clínica e patológica – foram significativamente superiores no grupo tratado com a TNT,  com taxas quase três vezes maiores”, afirma a oncologista e pesquisadora.

A TNT É uma terapia inovadora indicada para o tratamento do câncer retal localmente avançado. A TNT intensifica o tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia para reduzir o tamanho do tumor e das metástases antes do procedimento cirúrgico, com o objetivo de melhorar a resposta ao tratamento, preservar o esfíncter anal, evitar a colostomia, e aumentar a sobrevida.

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