Crédito: Divulgação Março Azul em Seabra (Bahia)
A Campanha Março Azul 2026 realizou, no município de Seabra, na Chapada Diamantina (BA), uma das maiores ações organizadas de rastreamento do câncer colorretal já realizadas no país. A iniciativa reuniu triagem populacional em larga escala e diagnóstico endoscópico especializado, demonstrando o potencial de programas estruturados de prevenção da doença no Brasil.
A estratégia combinou a distribuição de cerca de 7 mil testes imunoquímicos fecais (FIT) e a realização de mais de 650 colonoscopias em pacientes com resultados positivos ou indicação clínica. O modelo seguiu protocolos adotados em diversos países que mantêm programas organizados de rastreamento populacional do câncer colorretal.
O FIT é um exame simples e não invasivo que detecta a presença de sangue oculto nas fezes, um possível marcador de pólipos avançados ou tumores do intestino. Por permitir a triagem de grandes populações com baixo custo e boa sensibilidade, o método é amplamente utilizado em estratégias de prevenção da doença em sistemas de saúde ao redor do mundo.
Coordenada pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED), pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), a mobilização envolveu uma ampla rede de profissionais de saúde, gestores e voluntários. O Hospital Regional da Chapada, gerida pela Fundação Fabamed, sediou o mutirão e recebeu especialistas de diferentes regiões do país para a realização dos exames.
SUS TRIPLICA ACESSO – A experiência realizada durante seis dias de mobilização em Seabra ocorre em um momento em que o país começa a ampliar sua capacidade de rastreamento e diagnóstico. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que o número de exames de pesquisa de sangue oculto nas fezes triplicou nos últimos dez anos, passando de 1,1 milhão em 2016 para mais de 3,3 milhões em 2025. No mesmo período, o número de colonoscopias realizadas na rede pública aumentou de aproximadamente 261 mil para mais de 639 mil procedimentos por ano, expansão de cerca de 145%.
Segundo os organizadores da campanha, a combinação entre triagem populacional e exames diagnósticos especializados permite identificar lesões precursoras do câncer antes mesmo do surgimento de sintomas, ampliando as possibilidades de prevenção. De acordo com relatório preliminar da ação em Seabra, dos 7 mil testes distribuídos, 6.382 foram efetivamente analisados, indicando elevada adesão da população ao programa.
Entre os exames processados, a taxa de positividade observada foi de aproximadamente 7,85%, percentual semelhante ao registrado em programas internacionais de rastreamento baseados na utilização do FIT. A partir dos resultados positivos e de outras indicações clínicas, foi organizado um mutirão de colonoscopias no Hospital Regional da Chapada.
Entre os principais achados estão a identificação de pólipos ou lesões submetidas a biópsia ou ressecção endoscópica em 347 pacientes, além de uma taxa de detecção de pólipos de aproximadamente 53%. Também foram identificadas oito lesões infiltrativas com aspecto endoscópico sugestivo de câncer colorretal, correspondendo a cerca de 1,3% das colonoscopias realizadas. Todos os casos foram submetidos a biópsia e encaminhados para estadiamento e tratamento oncológico em unidade especializada.
ESTRATÉGIA NACIONAL – Segundo o médico Victor Rossi, um dos coordenadores da ação em Seabra, os resultados demonstram a relevância de estratégias organizadas de rastreamento para o enfrentamento da doença no país. “A experiência mostra que é possível estruturar programas capazes de alcançar grandes populações e identificar precocemente lesões que podem evoluir para câncer. O rastreamento permite não apenas diagnosticar a doença mais cedo, mas também evitar que ela se desenvolva por meio da remoção de pólipos durante a colonoscopia”, afirma.
Atualmente, cerca de 65% dos casos de câncer colorretal ainda são diagnosticados em estágios avançados, o que reduz as chances de recuperação. Quando identificado precocemente, no entanto, o câncer de intestino pode apresentar taxas de cura próximas de 90%.
Considerando o porte populacional do município, estimado em cerca de 48 mil habitantes, a análise de mais de seis mil testes FIT representa uma cobertura significativa da população elegível para rastreamento, o que indica a viabilidade de implantação de programas estruturados de prevenção do câncer colorretal em municípios de médio porte no Brasil. Além da triagem populacional, a campanha Março Azul também envolve ações de educação em saúde por todo o país, além de capacitação profissional e produção científica voltadas à ampliação da conscientização sobre o câncer de intestino e à importância do diagnóstico precoce da doença. “Agradeço todos os profissionais envolvidos, especialmente os agentes comunitários de saúde, verdadeiros guerreiros”, concluiu Rossi.



