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Líderes mundiais se reuniram nesta semana em Belém, no Brasil — porta de entrada da Amazônia —, antes da Cúpula da COP30, reafirmando seu compromisso com a cooperação climática global. Entre as principais prioridades definidas para as negociações deste ano estão: combustíveis fósseis, financiamento climático e proteção das florestas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu o tom ambicioso da agenda da COP30, conclamando os líderes globais a estabelecer um roteiro mundial para encerrar a dependência dos combustíveis fósseis e cumprir os compromissos internacionais de triplicar a capacidade de energia renovável e dobrar a eficiência energética até 2030. Lula afirmou que é essencial que os países deixem Belém com NDCs alinhadas à meta de 1,5°C firmada em Dubai. Ele também lançou o Compromisso de Belém, que prevê quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035, e destacou a necessidade de adotar mecanismos de troca de dívida por clima para apoiar países em desenvolvimento.
Entre os líderes presentes estavam o presidente Emmanuel Macron (França), o presidente Cyril Ramaphosa (África do Sul), o primeiro-ministro Keir Starmer e o príncipe William (Reino Unido), a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu António Costa e o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre (Noruega).
No primeiro dia da cúpula, o Brasil lançou o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), com capital inicial superior a US$ 5,5 bilhões. As maiores contribuições vieram da Noruega (US$ 3 bilhões em dez anos), França (US$ 500 milhões), Brasil (US$ 1 bilhão) e Indonésia (US$ 1 bilhão). O bilionário australiano Andrew Forrest tornou-se o primeiro investidor filantrópico, com uma doação de US$ 10 milhões. A Alemanha anunciou uma contribuição significativa, mas ainda não divulgou valores, enquanto o Reino Unido ficou de fora ao decidir não investir. Outras contribuições são esperadas ao longo do próximo ano. (Veja aqui mais detalhes, notas e aspas da Coletiva de Imprensa)
Brasil e Azerbaijão também divulgaram nesta semana o Baku to Belém Roadmap — um plano para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão em financiamento climático até 2035. Trata-se de uma lista extensa de ações, mas ambas as presidências ressaltaram que seu papel se limita a propor, e não a aprovar o plano. Observadores alertaram que isso pode acabar se tornando “apenas mais um relatório”.
Um marco desta cúpula foi a Declaração de Belém sobre o Combate ao Racismo Ambiental, a primeira iniciativa internacional a vincular formalmente justiça racial e ação climática em um mesmo marco. Assinada antes da COP30, ela reconhece o racismo ambiental como um desafio global enraizado em legados coloniais e desigualdades estruturais, e conclama todas as nações a enfrentar os impactos desproporcionais da crise climática e da poluição sobre comunidades afrodescendentes, indígenas e locais. A declaração coloca a justiça racial e a justiça ambiental como pilares inseparáveis do desenvolvimento sustentável e abre caminho para uma futura resolução da ONU sobre o tema.
À medida que os impactos e os custos da inação continuam a crescer, temas como adaptação, financiamento climático e o déficit de ambição deixado pelos grandes emissores em seus planos nacionais dominaram as intervenções dos líderes. Nas próximas duas semanas, negociadores e a presidência da COP terão de enfrentar essas prioridades tanto nas negociações formais — incluindo a Meta Global de Adaptação e a Transição Justa — quanto na agenda mais ampla de ações da presidência.
Declarações de líderes:
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
“O mundo precisa de um roteiro claro para acabar com sua dependência dos combustíveis fósseis. É hora de diversificar nossas matrizes energéticas, expandir as fontes renováveis e acelerar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis.”
“Mais de 250 mil pessoas podem morrer todos os anos. O PIB global pode encolher até 30%. É por isso que a COP30 será a COP da verdade. É hora de levar os alertas da ciência a sério. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos a coragem e a determinação necessárias para transformá-la.”
Chanceler da Alemanha, Friedrich Merz:
“Todos os países devem decidir: o que é uma ação responsável — para a segurança e a prosperidade de longo prazo de nossos cidadãos, para a competitividade de nossas economias e, de fato, para o clima? Para a Alemanha, a decisão neste ponto de inflexão é clara.
Estamos apostando em inovação e tecnologia para enfrentar com sucesso as mudanças climáticas. Nossa economia não é o problema. Nossa economia é a chave para proteger ainda melhor o nosso clima.”
Ministro das Ilhas Marshall, Kalani Kaneko:
“Sabemos que o Acordo de Paris impulsionou a ação climática — ampliamos a energia limpa e desaceleramos o aquecimento. Mas o futuro do meu país depende de cada Parte se unir para fazer muito mais, e muito mais rápido. Estejam ou não presentes aqui, os maiores emissores precisam se manifestar nos papéis — com NDCs mais ambiciosas e mais financiamento.”
Reações de especialistas:
Cláudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima (Brasil), disse:
“O sinal político do discurso de Lula é muito positivo, ao colocar na mesa o que deve ser o tema central da COP — implementar a decisão de Dubai de abandonar os combustíveis fósseis. Ele falou em um ‘roteiro’ para acabar com a ‘dependência’, o que seria um grande avanço num contexto marcado pelo fortalecimento do LMDC, a ausência dos EUA e o enfraquecimento da liderança europeia. Sabemos que será difícil avançar nesse tema, mas uma COP que não fala de fósseis falha em seu propósito. As palavras importam — e Lula, como anfitrião, deu à presidência brasileira o mandato político de que precisava.”
Ani Dasgupta, presidente e CEO do World Resources Institute, disse:
“Os líderes viajaram até Belém para mostrar que investir em economias mais limpas e resilientes não é apenas uma questão ambiental — é uma questão de segurança e competitividade de longo prazo. Eles mostraram que estão transformando suas economias com o crescimento verde no centro, mesmo reconhecendo que ainda há um longo caminho a percorrer.”
Alejandra López, diretora de Diplomacia Climática da Transforma, disse:
“Excelentes sinais da presidência brasileira, com Lula mencionando a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e apoiando o lançamento do TFFF, que aborda a principal fonte de emissões no mundo — o setor de energia — e também a principal fonte na América Latina, que é o desmatamento. Outros líderes mundiais precisam seguir o exemplo do Brasil para que a COP30 seja um sucesso.”
Lord Zac Goldsmith, ex-ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, disse:
“Este lançamento oficial é um passo monumental para garantir que as florestas valham mais vivas do que mortas. O TFFF dá aos governos a confiança de que, ao interromper o desmatamento, serão recompensados ano após ano. E, graças ao seu desenho, os investidores terão retorno financeiro. Em um momento de escassez de recursos e crescente destruição das grandes bacias florestais, isso é o mais próximo que se pode chegar de uma situação em que todos ganham. A decisão do Reino Unido de recuar na última hora é extremamente frustrante — principalmente porque ajudamos a desenhar o fundo e colocamos as florestas no topo da agenda quando sediamos a COP26. Mas, com ou sem o Reino Unido, a história foi feita hoje, e os países que apoiam o TFFF serão lembrados com gratidão pelas futuras gerações.”
Vaibhav Chaturvedi, pesquisador sênior do Council On Energy, Environment and Water (CEEW), sobre o Baku to Belém Roadmap, disse:
“O roteiro proposto destaca a importância da equidade e da justiça, e busca oferecer um quadro de ação coerente para ampliar o financiamento no curto e médio prazo. A proposta para que os países desenvolvidos comuniquem suas ‘contribuições e caminhos pretendidos’ para alcançar a meta de pelo menos US$ 300 bilhões até 2035 ajudará a medir e monitorar o progresso na entrega de financiamento. É fundamental que a ambição não se limite às ações de mitigação — ela também deve envolver a entrega efetiva de recursos.”



