Crédito da foto: BERRO INC. (berro.inc @pauloaragonn_)
Iniciativa levou atendimento oftalmológico a comunidades como Rocinha, Maré e Complexo do Alemão, triou mais de 2 mil alunos e garantiu correção visual a 1.005 crianças
Ao concluir seu primeiro ciclo de atuação, em dezembro de 2025, o Projeto Recicla Visão aponta uma falha estrutural no acesso à saúde ocular em áreas de alta vulnerabilidade social a partir dos resultados obtidos em campo. A iniciativa realizou triagem visual em mais de 2 mil crianças e adolescentes em comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Desse universo, 1.419 foram encaminhadas para exames oftalmológicos completos em uma unidade móvel, e 1.005 passaram a usar óculos, com correção para miopia, hipermetropia e astigmatismo, além de óculos de apoio ao estudo indicados no ambiente escolar.
Criado para levar atendimento oftalmológico gratuito a crianças de 8 a 14 anos em áreas vulneráveis, o Projeto Recicla Visão opera por meio de uma clínica móvel que percorre escolas e ONGs. Além dos exames, o projeto produz e distribui óculos com armações feitas com plástico reciclado e promove ações educativas ligadas à sustentabilidade, integrando saúde, educação e economia circular em um único modelo de atuação.
A maioria dos casos foi de hipermetropia (34%), condição que dificulta a visão de perto e compromete diretamente atividades básicas como leitura e escrita. Outros 26% tinham miopia, e 28% apresentavam algum tipo de astigmatismo. Apenas 12% não necessitavam de correção óptica.
Os números do projeto não representam um retrato epidemiológico da população infantil. Eles refletem o universo de crianças que só tiveram acesso à avaliação oftalmológica porque o atendimento foi levado diretamente às comunidades. Nesse recorte, o que aparece é a dimensão de uma demanda reprimida por exames básicos de visão em territórios onde esse tipo de serviço é raro ou inexistente. “Os dados refletem o recorte específico das crianças atendidas pelo Projeto Recicla Visão. Em muitas turmas, mais da metade das crianças examinadas precisava de correção. São alunos que estavam tentando aprender sem enxergar o quadro ou o próprio caderno”, afirma Ana Santos, fundadora da Social Visão do Bem, gestora da operação dos atendimentos oftalmológicos do projeto.
Os atendimentos foram realizados entre abril e dezembro de 2025 em 22 instituições, distribuídas por 19 territórios, incluindo Rocinha, Maré, Complexo do Alemão, Chapadão, Campo Grande, Duque de Caxias, São Gonçalo, Japeri e Saquarema. Todas as crianças receberam exames oftalmológicos completos em uma clínica móvel adaptada.
O projeto entregou mais de mil óculos, com armações feitas de plástico reciclado. Paralelamente, foram identificados 39 casos (cerca de 4% da amostra) que exigiram encaminhamentos médicos para investigação de patologias graves, como glaucoma, ceratocone e alterações de retina — condições que, sem diagnóstico precoce, podem levar à perda irreversível da visão.
Na prática, o Projeto Recicla Visão funcionou como uma rede paralela de saúde preventiva em territórios onde o acesso a exames oftalmológicos é raro. Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia indicam que 80% das crianças em idade escolar nunca passaram por avaliação visual. O próprio projeto demonstrou que, em áreas vulneráveis, essa lacuna se traduz em impacto direto no aprendizado.
Além da dimensão sanitária, o projeto incorporou um eixo ambiental. As armações foram produzidas pela Casa Plastica a partir de resíduos reciclados. Cerca de 15 toneladas de plástico foram reaproveitadas. Oficinas de sustentabilidade alcançaram aproximadamente 2.000 crianças em 22 instituições, ensinando, na prática, conceitos de economia circular.
O Projeto Recicla Visão é uma iniciativa articulada pela Precious Noggles, em parceria com a Social Visão do Bem, Casa Plastica e Berro Inc., com patrocínio da Nouns DAO. O modelo combina clínica móvel, produção local de óculos e ações educativas, e foi concebido para ser replicável.
Para Mariana Salles, fundadora da Precious Noggles, os resultados revelam um problema estrutural. “Os dados mostram que não se trata de exceção, mas de um padrão. Há uma parcela significativa de crianças tentando aprender sem enxergar. Isso não é uma questão técnica, é uma questão de prioridade. Nosso objetivo agora é levar esse modelo para outros estados e transformar o Projeto Recicla Visão em uma política de impacto contínuo, capaz de atender milhares de crianças todos os anos”, afirma.
O projeto encerra sua primeira etapa com indicadores claros: mais de mil crianças com correção visual imediata, dezenas de casos graves identificados precocemente, e um modelo operacional validado em escala real. A proposta agora é expandir a atuação para outras regiões do país.
“O impacto do projeto está em levar um cuidado básico de saúde a lugares onde ele simplesmente não existe. Cada criança atendida passa a ter melhores condições de aprendizado e qualidade de vida”, completa Ana Santos.



