03 de abril de 2025

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Multilateralismo e representatividade dos povos amazônicos serão os principais desafios para a COP30, dizem especialistas em encontro

Divulgação: UNESP

O “Encontro Unesp: Perspectivas para a COP30” reuniu pesquisadores de diferentes instituições para abordar os temas que estarão no centro dos debates durante a realização da Conferência, em novembro, em Belém

Entre os inúmeros desafios que serão colocados à mesa da 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP30) em novembro, em Belém, a manutenção dos acordos multilaterais entre os 195 países signatários do Acordo de Paris, que estabeleceu metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, e a inclusão dos povos amazônicos como atores atuantes destas negociações são as principais situações a serem superadas naquela que será a primeira COP realizada na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo.

Estes foram os dois pontos que mais se destacaram na primeira edição do “Encontro Unesp: Perspectivas para a COP30”, realizado pelo Escritório de Sustentabilidade da Reitoria da Unesp na última terça-feira (1º), no auditório da Escola Paulista da Magistratura, região central da capital.

As quatro sessões do evento reuniram alguns dos principais pesquisadores da Unesp que trabalham com projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU e um painel com convidados externos que debateram o atual arcabouço diplomático global que busca desacelerar as emissões de CO2 equivalente no planeta, promovendo a descarbonização da atmosfera terreste e consolidando mecanismos de adaptação e mitigação às mudanças climáticas.

No encontro, o governo federal foi representado pela professora Andrea Brito Latgé, secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Pelo governo estadual, estiveram presentes a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende Andrade Ávila, e o assessor de Planejamento da Subsecretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Eduardo Trani.

De acordo com o serviço climático europeu Copernicus, uma das principais fontes para dados globais, o ano de 2024 foi o mais quente já registrado e o primeiro a ultrapassar a marca de 1,5°C de aumento na temperatura média da Terra em relação aos níveis pré-industriais, um dos parâmetros usados para as metas fixadas no Acordo de Paris, em 2015.

“Se mantiver o multilateralismo e esse esforço (internacional em prol da descarbonização), acho que já vai ser um resultado fantástico”, afirmou a pesquisadora Thelma Krug, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e atual presidente do Sistema de Observações Globais para o Clima (GCOS, na sigla em inglês). “Já existia um questionamento se o Acordo de Paris, que completa dez anos, iria continuar. Mesmo antes da saída dos Estados Unidos. Agora vai ser um trabalho importante sob esta perspectiva”, disse.

Em 2025, sob o governo de Donald Trump, os Estados Unidos anunciaram a saída do Acordo de Paris e planos de abertura de novos campos para a exploração de petróleo. Isso contraria as recomendações da Agência Internacional de Energia e põe em xeque todo o esforço das últimas décadas por parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo de cientistas que monitora as mudanças climáticas na Terra, criado pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A pesquisadora do Inpe foi vice-presidente do IPCC de 2015 a 2023.

“A esperança que tenho é que a gente consiga manter este multilateralismo. Não tenho muita confiança de que, no momento atual, depois da saída dos Estados Unidos (do Acordo de Paris) e agora com os investimentos em Defesa por parte dos europeus, a gente consiga um aumento do financiamento”, disse Thelma Krug. “Agora, o financiamento não precisa necessariamente dos países. Também é uma questão de estimular outros processos.”

De acordo com cálculos do IPCC, seria necessário um financiamento de US$ 5 trilhões por ano para iniciar ou fortalecer programas de mitigação e adaptação às mudanças do clima ao redor do planeta. Na COP29, realizada no ano passado no Azerbaijão, os países participantes da conferência concordaram com uma meta financeira anual de US$ 300 bilhões até 2035 para ajudar os países mais pobres a lidar com os impactos das mudanças climáticas. Esse valor frustou a expectativa dos países em desenvolvimento, que reivindicam maior participação das nações com as maiores economias do planeta neste financiamento.

Os países com as maiores emissões anuais de gases de efeito estufa são a China, com cerca de 13 bilhões de toneladas de CO2, e os Estados Unidos, com 5,5 bilhões de toneladas de CO2 (embora, na relação per capita, os Estados Unidos sejam os líderes de emissões), seguidos de Índia, Rússia e Japão. O Brasil emite aproximadamente 2 bilhões de toneladas de CO2 no ano, sendo quase a metade relacionada a desmatamento dos biomas.

Julia Cohen, da Universidade Federal do Pará, disse durante o evento estar confiante que a COP30 resulte em acordos que mantenham o pacto global e que, ao mesmo tempo, abram espaço para uma participação mais atuante dos povos amazônicos nas negociações. A docente lembra que as universidades da Região Norte do país se uniram em um movimento em torno da conferência chamado “Ciência e vozes amazônicas: COP30”.

“Apesar das notícias que vêm dos Estados Unidos, a gente precisa se unir. A gente está fazendo isso na Amazônia, unindo as universidades da região, e deixo o convite para vocês também se unirem à gente”, afirmou Julia Cohen. “Estamos fazendo este trabalho, liderado pela UFPA e com a participação de várias instituições da região. Lançamos em fevereiro, com a presença da ministra Marina Silva, de lideranças quilombolas, indígenas. Trabalhamos para que eles sejam ouvidos. As pessoas querem que eles sejam guardiões (da Amazônia). Então precisa ouvi-los”, afirmou a professora da UFPA.

Julia Cohen considerou “muito pertinente” a ponderação feita, durante o debate, por Thelma Krug sobre justiça climática. A pesquisadora do Inpe lembrou que, apesar da recomendação de descarbonização da atmosfera e interrupção da exploração de combustíveis fósseis, as nações mais ricas, em especial os Estados Unidos sob Donald Trump, seguem com planos de abertura de novos campos de petróleo, o que poderia legitimar uma ação neste sentido do Brasil, como a abertura de poços na Margem Equatorial, como deseja a Petrobras. Neste contexto, Krug se opôs à fala do biólogo Philip Martin Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) que fez críticas a a algumas políticas em curso pelo governo brasileiro.

“Quero, sim, desenvolvimento (sustentável), mas quero oportunidades para os povos indígenas, para os povos tradicionais”, afirmou Thelma Krug. “Se você pensar do ponto de vista de justiça climática, os Estados Unidos dizendo que vão abrir um monte de poços, outros países vão aumentar a sua produção, é difícil, sabe, Fearnside”, disse, reconhecendo que refletir sobre a exploração de petróleo na porção brasileira da Margem Equatorial, perto da foz do Amazonas, é um dos seus “maiores conflitos pessoais hoje”.

Para a reitora da Unesp, professora Maysa Furlan, que participou da mesa de abertura do encontro, não se pode discutir o futuro do bioma amazônico sem representatividade das populações que lá habitam. “A universidade defende que esses povos estejam lá representados porque eles são muito importantes. Senão, esse debate perde a sua grandeza maior, que é o conhecimento das florestas e do bioma”, diz a reitora. “A universidade, para além do seu conhecimento, tem um valor social, um valor de reconhecimento dessa participação bastante importante. E tem trabalhado nesse sentido, para que, realmente, possamos ter representatividade na COP30. Isso trará um valor final imenso para as discussões.”

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