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Pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn analisa diretrizes que vão além do tempo de tela e introduzem o conceito de “ecossistemas digitais”
A Academia Americana de Pediatria (AAP) acaba de divulgar um novo guia de recomendações que propõe uma mudança estrutural na forma como crianças e adolescentes devem se relacionar com telas e mídias digitais. O documento abandona a lógica centrada apenas na contagem de horas diante de dispositivos e passa a tratar o ambiente digital como um ecossistema complexo, formado por conteúdos, plataformas, algoritmos, modelos de negócio, relações familiares e contextos sociais.
Segundo a AAP, o uso de mídias digitais não pode mais ser analisado isoladamente como um comportamento individual da criança ou limitado a regras genéricas de tempo. O guia destaca que grande parte do ecossistema digital atual é projetada para maximizar engajamento e coleta de dados, operando muitas vezes fora do controle direto das famílias, o que exige uma abordagem mais ampla e compartilhada de proteção à infância.
Para a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn, formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Neurociência e Desenvolvimento Infantil, o novo documento representa um avanço importante na forma de orientar pais, profissionais de saúde e educadores. “Recomendações que antes passavam por orientar apenas o tempo de uso não são mais suficientes. Em vez de pensarmos apenas nas limitações de tempo, a reflexão atual exige controle de contextos, ambientes, relacionamentos e experiências nas esferas digitais.” O documento define “ecossistema digital” como o conjunto de ambientes tecnológicos que inclui televisão, internet, redes sociais, videogames, aplicativos e assistentes virtuais. De acordo com a AAP, esse ambiente precisa ser pensado, controlado e constantemente revisitado, devido ao impacto direto no desenvolvimento das crianças.
Outro ponto central do guia é a ênfase na responsabilidade compartilhada. A AAP destaca que a proteção da infância no ambiente digital não deve recair apenas sobre os pais. Escolas, plataformas digitais, comunidades e formuladores de políticas públicas têm papel fundamental na criação de ambientes mais seguros, éticos e adequados à idade. O documento também chama atenção para a chamada “technoference”, quando o uso frequente de celulares pelos adultos interfere na interação com as crianças, impactando vínculos, atenção e segurança emocional. Para a pediatra, a forma como os adultos se relacionam com a tecnologia é determinante nesse processo. “O mundo digital pode aproximar, quando usado junto, com orientação e vínculo, ou afastar, quando substitui presença, diálogo e interação real.”
Como orientação prática, o guia recomenda que as famílias desenvolvam um Plano Familiar de Mídia, com regras claras sobre onde, quando, por quanto tempo e quais conteúdos podem ser acessados, além de estratégias para lidar com situações de risco no ambiente digital. “A mensagem central não é proibir telas, mas redesenhar a forma como elas fazem parte da infância”, resume a Dra. Anna. “As telas devem promover apoio ao desenvolvimento emocional, social e cognitivo, e não limitá-lo.” Ao final, o guia reforça que o desafio contemporâneo não é eliminar a tecnologia da vida das crianças, mas garantir que ela esteja a serviço do desenvolvimento infantil, e não o contrário.
Acesse o novo guia da Academia Americana de Pediatria- AAP
Sobre a especialista:
Site: https://pediatriaup.com.br/
Instagram: @dra.annadominguezbohn
Dra. Anna Dominguez é pediatra formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Terapia Intensiva Pediátrica, Síndrome de Down, Neurociência e Desenvolvimento Infantil. Atualmente integra o corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, onde também ministra cursos de atualização para médicos de diversas especialidades, além de atuar nos hospitais Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
CRM 150.572 | RQE 106869 / 1068691



