Ana Luiza Costa Silva, pesquisadora de pós-doutorado no DF da UFSCar (Foto: Arquivo pessoal)
Pesquisadora brasileira desenvolverá sensores com apoio do Marie Skłodowska-Curie Actions para aplicações ambientais e industriais
Ana Luiza Costa Silva, pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Física (DF) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), foi selecionada para financiamento do programa Marie Skłodowska-Curie Actions (MSCA) 2025, uma das mais prestigiadas iniciativas da União Europeia voltada à mobilidade de pesquisadores e ao desenvolvimento de projetos em colaboração internacional. Atualmente, a pesquisadora é supervisionada por Victor Lopez-Richard, docente do DF, com financiamento pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Física (PPGF) da UFSCar, onde concluiu o doutorado em 2023 sob orientação de Marcio Peron, do DF, Silva atua na área de Física Experimental, com foco em materiais semicondutores e suas propriedades eletrônicas. Sua pesquisa envolve filmes finos de óxidos metálicos e fenômenos conhecidos como memória resistiva e capacitiva – comportamentos em que o material responde de forma distinta a estímulos elétricos com base em interações anteriores.
O projeto contemplado se concentra em materiais muito finos, capazes de “guardar memória” de sinais elétricos. “A ideia é explorar essa propriedade no desenvolvimento de sensores que não apenas detectam gases no ambiente, mas também registrem a exposição ao longo do tempo diretamente no próprio dispositivo”, explica. Segundo ela, esses sensores serão integrados a sistemas ópticos no infravermelho médio, permitindo identificar moléculas específicas com alta precisão. “O objetivo é desenvolver sensores inteligentes, que funcionem em temperatura ambiente para aplicações ambientais e industriais.”
A proposta aprovada, intitulada “Resistive Memory Interfaces for Next-generation Detection” (Remind), será desenvolvida na Julius-Maximilians-Universität Würzburg, na Alemanha, no grupo do pesquisador Fabian Hartmann. A universidade possui tradição em pesquisa científica e esteve associada a 14 laureados com o Prêmio Nobel, incluindo Wilhelm Conrad Röntgen, que descobriu os raios X no Instituto de Física da instituição e recebeu o primeiro Prêmio Nobel de Física em 1901.
Durante o período no exterior, o trabalho envolverá análises de dispositivos semicondutores em escala nanométrica. “O projeto envolve a fabricação e caracterização de dispositivos em sala limpa – um ambiente altamente controlado, com níveis extremamente baixos de microrganismos e contaminantes químicos no ar – e sua análise por técnicas avançadas de microscopia e espectroscopia”, afirma. “O intuito é entender como as propriedades eletrônicas desses materiais mudam em diferentes condições ambientais.” A etapa também inclui atividades de formação, como redação científica, planejamento de carreira e supervisão de estudantes de graduação e pós-graduação.
Entre as aplicações previstas estão sensores mais sensíveis para monitoramento ambiental, controle da qualidade do ar e segurança industrial. “O entendimento desses efeitos de memória pode contribuir para novas gerações de dispositivos eletrônicos e optoeletrônicos, incluindo tecnologias inspiradas no funcionamento do cérebro”, destaca a cientista.
Seleção em escala global
A edição de 2025 do MSCA recebeu 17.066 propostas, o maior número da história, e selecionou 1.610 projetos, com taxa de aprovação inferior a 10%. Os trabalhos aprovados envolvem pesquisadores de cerca de 80 nacionalidades e serão desenvolvidos em 45 países.
“Para nós, foi extremamente gratificante. O processo é muito competitivo e envolve uma avaliação detalhada do projeto científico, do impacto esperado da pesquisa e da trajetória do pesquisador. Saber que a minha proposta foi selecionada entre mais de 17 mil candidaturas de todo o mundo traz uma sensação de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos e pelas colaborações construídas. Ao mesmo tempo, é uma grande motivação para seguir avançando na pesquisa e aproveitar ao máximo as oportunidades que a MSCA oferece”, afirma Silva.
Para a UFSCar, a participação em programas internacionais desse porte amplia a inserção da produção científica da Instituição em redes globais. “Essa conquista fortalece a visibilidade do que é desenvolvido na Universidade e mostra que o trabalho realizado aqui está conectado com temas científicos de fronteira e com redes internacionais de pesquisa”, avalia.
Ao destacar o impacto da experiência, a pesquisadora também aponta para os desdobramentos futuros do projeto. “Essas colaborações ampliam as oportunidades de intercâmbio científico e de formação de novos pesquisadores. Além de avançar na pesquisa, a expectativa é consolidar parcerias que tenham continuidade e impacto a longo prazo”, finaliza. Mais informações sobre o programa Marie Skłodowska-Curie Actions (MSCA) estão disponíveis em https://marie-sklodowska-curie-actions.ec.europa.eu



