Crédito: Divulgação / Projeto Mangues da Amazônia / Escola vai ao Mangue
Sob as luzes da COP 30 em Belém, aulas a céu-aberto mobilizam jovens para interagir com a captura de caranguejos, entender a ecologia das espécies e valorizar um dos ecossistemas mais importantes para o clima do planeta
Os manguezais têm importante papel na manutenção da biodiversidade marinha. São indispensáveis à produção pesqueira e à renda e segurança alimentar das populações locais. Protegem a zona costeira contra a força do mar e destacam-se pelo alto estoque de carbono, chave na mitigação das mudanças climáticas. Nos manguezais do Pará, que juntamente com os do Maranhão possuem a maior faixa contínua de manguezais do planeta, funcionam como laboratório-vivo para a educação ambiental, inspirando jovens – tanto no conhecimento científico como na maior valorização e uso sustentável desse ecossistema.
Na iniciativa “Escola vai ao Mangue”, em Bragança (PA) e entorno, alunos de instituições de ensino paraenses – inclusive da capital e municípios distantes do litoral – participam de aulas ao ar livre nas florestas de mangue, para lições sobre a ecologia desse ambiente. Lá conhecem desde a distribuição dos manguezais e suas diferentes espécies vegetais até os hábitos de vida do caranguejo-uçá, capturado para alimentação e geração de renda na região. “Quando entendem essas relações na prática, os jovens dão mais importância e valor para o ecossistema e seus recursos”, afirma Madson Galvão, biólogo, pesquisador do Mangues da Amazônia e do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Bragança.
“O trabalho promove uma nova visão da Amazônia, para além das florestas de terra firme”, reforça o biólogo, integrante do projeto Mangues da Amazônia, realizado pelo Instituto Peabiru, Associação Sarambuí e o LAMA. Visando à conservação e uso sustentável desse ecossistema, o projeto conta desde 2021 com o patrocínio da Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental, em benefício direto e indireto de cerca de 15 mil pessoas nos municípios paraenses de Bragança, Tracuateua, Augusto Corrêa e Viseu.
As ações da atividade “Escola vai ao Mangue” compõem a estratégia de maior aproximação entre os desafios dos manguezais e a sociedade escolar. Somente no ano de 2024, cerca de 2 mil alunos e 300 professores, no total de 29 escolas e 2 instituições de ensino superior, já participaram dessa atividade do projeto. Acompanhados por pesquisadores da universidade e pesquisadores comunitários, os jovens interagem com a difícil prática da captura do caranguejo-uçá dentro das tocas. Conhecem, também, como é feita a coleta do turu – molusco semelhante a uma minhoca, existente em troncos de árvores caídas, iguaria da culinária regional.
As atividades de campo com os alunos incluem a demonstração de equipamentos que medem a salinidade como fator que influencia a estrutura das plantas. Em paralelo, são apresentados métodos para aferir a importância dos manguezais na captura e estoque de carbono como uma característica estratégica no enfrentamento da mudança climática global.
Inspirados nas saídas a campo, estudantes de robótica na faixa dos 10 a 17 anos de idade desenvolveram um sensor que avalia o fluxo de dióxido de carbono no manguezal. “Alunos de outra escola construíram um aparelho para medir luminosidade, umidade, temperatura e outros fatores abióticos de modo a melhor entender o que acontece dentro da toca do caranguejo-uçá, e os eventos que precedem seu período reprodutivo.”, conta Galvão.
Nas aulas dentro dos manguezais, os instrutores abordam a importância de áreas protegidas, como as duas recentes Unidades de Conservação criadas pelo governo federal na costa amazônica do Pará: as Reservas Extrativistas Filhos do Mangue e Viriandeua, que integram um grande cinturão verde com o total de 14 territórios voltados ao uso sustentável na região.
Colocar o pé na lama é uma forma de romper estereótipos e preconceitos em relação aos manguezais como lugar inóspito. “Muitos que vivem em cidades da região costeira não tiveram oportunidade de conhecer esse ecossistema”, observa a bióloga Aparecida do Nascimento, professora da escola estadual Luiz Paulo Mártires, em Bragança. Parte das aulas de educação ambiental e biologia que ministra acontecem na natureza: “É uma maneira de praticar a teoria verificada em sala de aula”.
Uma das principais atividades é o plantio de mudas para reflorestamento de áreas degradadas de manguezais. Cerca de 80 alunos do Ensino Médio já integraram as ações, acompanhados da professora. “Visitamos mangues e praias para explicar a dinâmica das marés”, conta Nascimento, com planos de expandir o grupo em 2025, ano em que o Pará sediará a COP 30 do clima, em Belém, com visibilidade para a Amazônia como vitrine de soluções. Escolas regionais vão encaminhar propostas para a I Conferência Internacional Infantojuvenil sobre Educação e Mudança do Clima, conhecida como COP Juvenil, que acontecerá entre 7 e 21 de março.
Expansão das atividades socioambientais nos manguezais
No campo socioeducativo, além do apoio à visita das escolas para aulas práticas no ambiente natural, o Mangues da Amazônia realiza atividades extracurriculares junto a mais de mil estudantes de diferentes faixas etárias, moradores das comunidades locais: o Clube do Recreio (crianças de 4 a 6 anos), o Clube de Ciências (10 a 12 anos), o Protetores do Mangue (13 a 15 anos) e o AlfaMangue, voltado à alfabetização de crianças entre 7 e 9 anos.
No aspecto ambiental, o projeto dá continuidade à recuperação de manguezais em áreas degradadas, totalizando 16 hectares até o momento, com uso de tecnologias inovadoras. Além do mapeamento participativo dos locais para plantio de mudas, com apoio das comunidades extrativistas, o trabalho monitora o retorno dos caranguejos às áreas já restauradas no passado. Amostras de árvores são coletadas em diferentes áreas de pesquisa dos manguezais para o estudo de variabilidade genética, indicando onde estão as sementes que podem apresentar maior resiliência e sucesso no reflorestamento, com vistas ao iminente impacto antrópico e mudanças climáticas.
Há ainda, estudos sobre o potencial do carbono nas demandas da mudança climática. Sabe-se que a costa amazônica representa uma das maiores florestas de manguezais do mundo, com árvores superiores a 40 metros de altura – exuberância proporcionada, entre outros fatores, pela grande carga de matéria orgânica levada pelo rio Amazonas até a foz. Cientistas estimam que os manguezais da região produzem duas a três vezes mais carbono do que a floresta de terra firme, e novas pesquisas estão em desenvolvimento no LAMA para a obtenção de dados precisos sobre o tema.
Sobre o Projeto Mangues da Amazônia
O Mangues da Amazônia é um projeto socioambiental com foco na recuperação e conservação de manguezais em Reservas Extrativistas Marinhas do estado do Pará. É realizado pelo Instituto Peabiru, Associação Sarambuí e Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), e conta com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Com início em 2021 e duração de dois anos, o projeto foi renovado por mais 3 anos e atua na recuperação de espécies-chave dos manguezais, educação ambiental e ações socioculturais.
Sobre a Associação Sarambuí
A Associação Sarambuí é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) com sede em Bragança – Pará, constituída em 2015, cuja missão é promover a geração de conhecimento de maneira participativa, em prol da conservação e sustentabilidade dos recursos estuarino-costeiros. Nossas ações são direcionadas ao ecossistema manguezal, ao longo da costa amazônica brasileira, em particular no litoral do Estado do Pará. É uma das organizações realizadoras do projeto Mangues da Amazônia.
Sobre o Instituto Peabiru
O Instituto Peabiru é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) brasileira, fundada em 1998, que tem por missão facilitar processos de fortalecimento da organização social e da valorização da sociobiodiversidade. Com sede em Belém, atua nacionalmente, especialmente no bioma Amazônia, com ênfase no Marajó, Nordeste Paraense e na Região Metropolitana de Belém (PA). É uma das organizações realizadoras do projeto Mangues da Amazônia.