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22 de abril de 2026

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Recicláveis x reciclados: por que a indústria precisa avançar para o conteúdo reciclado

Crédito da foto: Getty Images

O debate sobre sustentabilidade no setor de embalagens plásticas precisa evoluir do conceito de reciclabilidade para a adoção efetiva de conteúdo reciclado pós-consumo. Para que a economia circular funcione de forma estrutural, não basta que uma embalagem seja tecnicamente reciclável; é indispensável que ela retorne ao ciclo produtivo, fechando o fluxo de materiais e reduzindo impactos ambientais de forma mensurável. 

O símbolo das três setas em formato de triângulo consolidou-se como referência para indicar que um produto é reciclável. Entretanto, essa sinalização, por si só, não assegura circularidade nem sustentabilidade. Segundo Irineu Bueno Barbosa Junior, CEO da Cirklo, uma das maiores recicladoras de PET do Brasil, a reciclabilidade deve ser entendida como condição necessária, mas insuficiente. “O produto só cumpre seu papel ambiental quando incorpora matéria-prima reciclada, especialmente pós-consumo. É isso que fecha o ciclo da economia circular. Recicláveis e reciclados são interdependentes, mas são os reciclados que materializam a circularidade na prática”, afirma. 

O que caracteriza um produto reciclado 

Do ponto de vista técnico e industrial, reciclado é todo material que passa por um processo de reprocessamento para uma nova utilização, retornando à cadeia produtiva como insumo. No caso do PET, trata-se da transformação de embalagens descartadas em resina reciclada apta a ser utilizada novamente pela indústria, inclusive em aplicações de maior exigência técnica. “O pós-consumo é o circuito que efetivamente fecha a economia circular. É exatamente esse o princípio que orienta a Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Decreto de Logística Reversa de Embalagens Plásticas: garantir que embalagens descartadas sejam coletadas, recicladas e reinseridas no sistema produtivo, evitando destinação inadequada”, explica Barbosa. 

Já os produtos recicláveis são aqueles potencialmente aptos à reciclagem, desde que sua composição permita reaproveitamento industrial. O desafio central é que, na prática, uma parcela significativa desses materiais não retorna ao sistema produtivo, perpetuando o modelo linear de produção, consumo e descarte. 

Design, decisões industriais e responsabilidade corporativa 

Embora essenciais, embalagens recicláveis exigem decisões técnicas rigorosas desde a etapa de design. Estruturas multi materiais, pigmentações pouco usuais e combinações complexas dificultam a triagem, elevam custos e comprometem a reciclagem em escala. “Sem embalagens recicláveis, a reciclagem sequer existiria. No entanto, para gerar impacto real, o produto precisa ser concebido para ser reciclado e, principalmente, reincorporado ao sistema produtivo”, destaca o executivo. 

Nesse contexto, a responsabilidade das empresas não se encerra na conformidade formal do produto. Cabe às marcas reinserirem material reciclado em seus próprios ecossistemas produtivos, adotando percentuais crescentes de conteúdo reciclado e contribuindo para a viabilidade econômica e operacional da cadeia da reciclagem. 

Decreto do Plástico e a consolidação do conteúdo reciclado 

Já em vigor, o Decreto de Logística Reversa de Embalagens Plásticas (12.688/2025) representa uma inflexão relevante na governança do plástico pós-consumo no Brasil. A norma estabelece metas obrigatórias de incorporação de matéria-prima reciclada, determinando que embalagens plásticas contenham, no mínimo, 22% de conteúdo reciclado, com escalonamento progressivo até 40% em 2040. O objetivo é elevar o índice nacional de reciclagem para 50% nos próximos 15 anos. 

Ao exigir percentuais mínimos de conteúdo reciclado, o decreto desloca o debate da intenção para a execução industrial. A regulamentação atribui às empresas a responsabilidade direta de reinserir material pós-consumo em seus próprios sistemas produtivos, criando previsibilidade para investimentos, incentivando a ampliação da capacidade instalada da reciclagem e induzindo mudanças estruturais em decisões de design, suprimentos e produção. 

“O decreto consolida um novo patamar regulatório. Ele deixa claro que sustentabilidade não pode se restringir à reciclabilidade ou à comunicação institucional. O uso de conteúdo reciclado passa a ser um critério objetivo de conformidade ambiental e de competitividade industrial”, avalia o CEO da Cirklo. 

Embora a operacionalização da logística reversa e a padronização de materiais ainda representem desafios relevantes, o marco regulatório alinha indústria, reciclagem e poder público em torno de um objetivo comum: transformar embalagens recicláveis em embalagens efetivamente recicladas e em escala. 

Impacto ambiental mensurável e segurança industrial 

Do ponto de vista técnico, produtos reciclados podem apresentar desempenho equivalente ao de materiais virgens. A Cirklo, por exemplo, produz resina PET reciclada de grau alimentício, certificada pela Anvisa e pelo FDA, o que demonstra a viabilidade do material para aplicações de alta exigência sanitária.  

O PET, por si, é um tipo de plástico com alto potencial sustentável. Segundo Análise do Ciclo de Vida da Embalagens PET para Alimentos Líquidos, conduzido pela Abipet, o PET tem um potencial de mudança climática 44% menor em comparação com embalagens de alumínio, e 93% menor em relação a embalagens de vidro. O estudo aponta que o PET e sua reciclabilidade são um importante motor de descarbonização para a indústria em geral.

Dados do PNUMA mostram ainda que 46% dos resíduos plásticos no mundo são destinados a aterros e 22% acabam descartados de forma inadequada. “Reciclar PET significa evitar que milhões de embalagens avancem sobre o meio ambiente e sobre recursos naturais não renováveis”, acrescenta Barbosa. 

Recicláveis e reciclados: funções distintas, responsabilidades claras 

Recicláveis e reciclados cumprem papéis complementares, mas é o conteúdo reciclado que viabiliza transformações ambientais e climáticas em escala. O avanço do debate climático em fóruns internacionais, como a COP 30, reforça a urgência de modelos produtivos mais responsáveis e orientados à circularidade real. 

“Se a indústria quiser contribuir de forma concreta para o enfrentamento da crise climática, precisa repensar sua relação com o plástico. A reciclagem, aliada à incorporação consistente de conteúdo reciclado, é hoje a solução mais confiável e escalável para gerar impacto ambiental positivo”, conclui Irineu Barbosa. 

Sobre a empresa – A Cirklo é uma das maiores recicladoras de PET do Brasil, especializada em soluções de economia circular. Com plantas em São Paulo, Paraíba e, mais recentemente, em Alagoas e no Pará, a empresa transforma garrafas PET pós-consumo em resinas recicladas de alta qualidade para novas embalagens. Suas operações contam com tecnologia de ponta, certificações da Anvisa e do FDA, e forte presença nas regiões Sudeste, Nordeste e Norte do país. Criada e controlada pela Flying Rivers Capital, gestora de investimentos dedicada exclusivamente à pauta climática, a Cirklo nasceu da fusão entre a Green PCR e a Global PET — empresas líderes em reciclagem que somam mais de 25 anos de trajetória conjunta — e conta também com o suporte do fundo internacional Circulate Capital. A companhia projeta o processamento de mais de 6 bilhões de garrafas PET em 2026, consolidando-se como uma plataforma industrial estratégica para a descarbonização da cadeia do plástico no Brasil.

Mais informações: cirklo.eco  

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