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Projeto idealizado por Carla Akotirene aposta na educação antimachista como estratégia de combate à violência de gênero
A 4ª edição do projeto Opará Saberes retorna em 2026 com uma proposta ampliada. Além de enfrentar as barreiras estruturais que dificultam o acesso de mulheres à pós-graduação, promoverá uma educação antimachista como estratégia central de combate à violência de gênero e ao feminicídio.
Idealizado por Carla Akotirene, doutora em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Mulheres e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA), o projeto articula formação acadêmica, produção de conhecimento e intervenção social.
“Neste ano em que completa dez anos, o projeto retorna com o propósito de promover um amplo debate em torno de uma educação antimachista, ampliando ações também para a educação básica e para adolescentes e jovens sob risco de cooptação por discursos de ódio e pela chamada ‘cultura redpill’, além de atuar na formação de operadores do Direito para qualificar as intervenções com homens autores de violência”, afirma a pesquisadora.
A formação 2026 do Opará Saberes iniciará um novo ciclo entre 21 e 27 de maio, em Salvador e contará com a participação de pesquisadores voltados à relação entre masculinidade e violência, como o filósofo Renato Noguera, autor de obras como Porque Amamos e ABC do Amor e o jurista Anderson Eduardo Carvalho de Oliveira.
A conferência de abertura, no dia 21 de maio, será com o pesquisador Deivison Mendes Faustino, conhecido como Deivison Nkosi, doutor em Sociologia e autor de obras como “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro” (2018), Frantz Fanon e as encruzilhadas: teoria, política e subjetividade (2022); O colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana (2023) e outros.
Entre os destaques desta edição está a produção de um material didático, além da criação de conteúdos audiovisuais que serão disponibilizados à rede pública de ensino, fortalecendo práticas pedagógicas críticas e emancipadoras, que combata o machismo ainda na infância e adolescência.
Foco na Educação Antimachista e na Prevenção ao Feminicídio
Para Anderson Eduardo, a proposta atua em duas frentes fundamentais:
“A educação antimachista que o Opará Saberes propõe envolve tanto a prevenção junto a adolescentes e jovens, especialmente aqueles expostos a discursos de ódio nas redes sociais, quanto a qualificação de operadores do sistema de justiça que atuam com a Lei Maria da Penha, com foco na responsabilização educativa de homens autores de violência”, explica o pesquisador, que é mestre e doutor pelo NEIM/UFBA.
Ele ressalta ainda a urgência da iniciativa diante do cenário atual:
“Vivemos um momento paradoxal. Temos uma das legislações mais avançadas do mundo, mas os índices de feminicídio seguem crescendo. Isso mostra que não basta punir, é preciso intervir nas estruturas que produzem a violência. A pena, por si só, não transforma masculinidades. Punir e educar não são opostos, mas complementares quando bem integrados. Esse momento de crescimento da violência contra a mulher torna essa integração não apenas oportuna, mas urgente”, defende Anderson, que também é bacharel em Direito e Especialista em Direito Penal e Criminologia.
Trajetórias acadêmicas impulsionadas
Criado a partir da necessidade de valorizar saberes produzidos por pessoas negras e epistemologias historicamente marginalizadas, o Opará Saberes será desenvolvido em parceria entre o PPGNEIM/UFBA e o Instituto de Juristas Negras. A iniciativa prevê cursos presenciais, expansão para diferentes unidades da UFBA, como a Faculdade de Direito, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e o Instituto de Psicologia e Serviço Social, e além de articulação com instituições como OAB, Ministério Público e Defensoria Pública.
A Profa. Dra. Márcia Tavares, do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA), destaca a importância da formação para impulsionar trajetórias acadêmicas:
“O projeto atuará como facilitador do acesso de mulheres negras, trans, quilombolas aos programas de pós-graduação. Tanto Carla Akotirene como eu defendemos uma universidade mais inclusiva, o que pode ser realizado com o processo formativo proporcionado pelo Opará Saberes”.
“O Opará é também espaço de referência, de acolhimento, de troca e de afeto”, afirma a Márcia Tavares, que é membro do Grupo Observatório pela Aplicação da Lei Maria da Penha (OBSERVE/NEIM/UFBA) e vice-coordenadora Nacional de Pesquisa do Observatório Lei Maria da Penha.
“Ao integrar educação, justiça e produção de conhecimento, o Opará Saberes reafirma seu compromisso com o enfrentamento estrutural do machismo e com a construção de caminhos concretos para a redução da violência de gênero no Brasil”, defende Carla Akotirene.



